|
No hemisfério norte, as linhas do campo magnético da Terra não correm paralelas ao chão. Elas mergulham na direção do solo, e mergulham mais quanto mais perto do polo. Em Massachusetts, entram no chão bem inclinadas.
Uma bactéria que nada rumo ao norte magnético, ali, nada também para baixo. E embaixo fica o lodo.
A Magnetospirillum é microaerófila (vive com pouco oxigênio: oxigênio demais a envenena, nenhum a sufoca). No lodo do pântano existe uma camada de poucos milímetros onde o oxigênio que desce da água encontra o ferro e o enxofre que sobem do fundo. Ali ela come e se multiplica.
Sem bússola, uma célula jogada para a água por uma onda teria de procurar essa camada em três dimensões, ao acaso. Com a fileira de ímãs, a busca vira uma linha reta: subir ou descer. O campo da Terra serve de trilho.
A bússola sozinha não basta, porque a mesma linha leva para cima e para baixo. A bactéria ainda sente o oxigênio. Quando encontra oxigênio demais, inverte o giro dos flagelos e recua pela mesma linha. O ímã dá a direção, e o sensor químico escolhe o sentido.
Em 1980, Blakemore, Frankel e o biólogo Adrianus Kalmijn publicaram na Nature o teste do raciocínio. Em lodo coletado na Nova Zelândia e na Austrália, quase todas as bactérias magnéticas nadavam para o sul.
No hemisfério sul, as linhas do campo mergulham no chão apontando para o sul magnético. Ali, nadar para o sul é o caminho para o fundo.
No norte, a bactéria procura o norte. No sul, procura o sul. Nos dois casos, procura o lodo. |
A polaridade não vem gravada para sempre. No mesmo trabalho, amostras mantidas em laboratório sob campo invertido mudaram de maioria ao longo de semanas: as células que nadavam para cima acabavam na água rica em oxigênio e paravam de crescer, e as do sentido certo se multiplicavam.
No equador magnético, onde as linhas correm paralelas ao chão, nenhum dos dois sentidos leva ao fundo. Em lodo de Fortaleza, no Ceará, os dois tipos apareceram misturados em proporções parecidas (Frankel, Blakemore, Torres de Araujo e Esquivel, Science, 1981).
A corrente de magnetita deixa rastro. Quando a bactéria se desfaz, os cristais ficam no sedimento e guardam a direção do campo daquele momento. Geólogos chamam esses restos de magnetofósseis (fósseis magnéticos) e os usam para reconstruir o campo da Terra do passado.
Em 1996, David McKay, da NASA, apontou na Science cristais de magnetita do meteorito marciano ALH84001 como possível sinal de vida. A hipótese segue sem confirmação: processos sem vida também fabricam magnetita parecida, e nenhum teste separou as duas origens até hoje.
|