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A tese do crânio-esponja não nasceu do nada. Ela juntava partes reais da anatomia do pica-pau e dava a cada uma a mesma tarefa: absorver o tranco.
A primeira peça é o osso hioide (o conjunto de ossinhos que sustenta a língua). No pica-pau, ele é longo e dá a volta pela parte de trás do crânio, subindo até perto do bico. Durante décadas, livros didáticos o descreveram como um cinto de segurança em volta da cabeça.
A segunda peça é o osso esponjoso da testa, cheio de pequenas placas e cavidades. Visto ao microscópio, parece mesmo um material feito para se deformar.
As peças existem, mas as filmagens de 2022 não registraram amortecimento entre o bico e o crânio. |
O hioide tem uma explicação mais simples e comprovada: ele permite que a língua saia muito além do bico para pescar larvas dentro dos túneis cavados na madeira. O osso esponjoso dá rigidez com pouco peso, a mesma lógica das estruturas em favo de mel usadas em asas de avião.
Mesmo assim, a versão do amortecedor se espalhou pela engenharia. Em 2011, os engenheiros Sang-Hee Yoon e Sungmin Park, da Universidade da Califórnia em Berkeley, publicaram na revista Bioinspiration & Biomimetics um protetor de choque para eletrônicos inspirado no bico, no hioide e no osso esponjoso da ave.
O protótipo deles empilhava camadas rígidas e macias em volta de um circuito, numa tentativa de copiar a sequência bico, hioide e osso esponjoso. Nos testes de impacto em laboratório, o dispositivo protegeu os componentes, o que mostra que a ideia funciona em máquina, mesmo que a ave não a use.
Capacetes de ciclismo e de futebol americano também foram vendidos com a promessa de imitar o pica-pau. O estudo de Van Wassenbergh não invalida esses produtos, que podem funcionar por outros motivos. Ele apenas tira deles o argumento biológico: o pássaro não usa o truque que o anúncio atribui a ele.
A pergunta sobre o cérebro também ganhou outra camada. Em 2018, o neuropatologista Peter Cummings e o pesquisador George Farah, da Universidade de Boston, publicaram na revista PLoS ONE a análise de cérebros de pica-paus guardados em museus.
Eles encontraram acúmulo de proteína tau (uma proteína que se amontoa nos neurônios de boxeadores e jogadores de futebol americano depois de pancadas repetidas). Em humanos, esse depósito é marca de lesão crônica.
O grupo de Boston não sabe dizer se a tau, no pica-pau, é sinal de dano ou um mecanismo de proteção da própria ave. O estudo usou poucos exemplares e nenhum pássaro vivo, e os autores escreveram que a dúvida continua aberta.
O retrato que sobra é mais modesto e mais interessante do que o mito. O pica-pau não tem escudo. Ele tem um cérebro pequeno, um golpe reto e um crânio duro, e vive no limite que esses três fatores permitem.
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