Sponsored by

Ciência Bizarra   Ciência Bizarra
ED 108

A formiga que corre 108 vezes o próprio corpo por segundo

No sul da Tunísia, a formiga-prateada do Saara cruza areia a 60 graus com 47 passadas por segundo e pelos de três lados que refletem infravermelho.

Formiga prateada de corpo brilhante sobre areia clara de duna sob sol forte do deserto

Formiga prateada sobre a areia do Saara

▼

Em 2019, Sarah Pfeffer e Harald Wolf, da Universidade de Ulm, montaram uma pista de corrida no meio de uma duna perto de Douz, no sul da Tunísia, filmaram formigas-prateadas do Saara a 3.125 quadros por segundo e cronometraram 855 milímetros por segundo. O animal mede cerca de 10 milímetros da cabeça ao abdome. Cada segundo de corrida cobre 108 vezes o comprimento do próprio corpo.

O número só ganha tamanho quando muda de escala. Um velocista humano de elite, no auge dos cem metros rasos, cobre por volta de seis vezes a própria altura por segundo. Uma pessoa de 1,75 metro correndo no ritmo relativo da formiga-prateada passaria de 680 quilômetros por hora.

A pista onde essa marca foi medida não é hospitaleira. A formiga-prateada, nome científico Cataglyphis bombycina, sai do ninho justamente na pior hora do dia, quando o sol está a pino, o ar passa dos 45 graus Celsius e a superfície da areia ultrapassa os 60. A maior parte dos animais do deserto está enterrada ou à sombra nesse horário, e é por causa disso que ela sai.

O cardápio dela é feito de insetos que não aguentaram o calor. Gafanhotos, moscas e besouros que erraram o cálculo térmico caem mortos na areia e viram comida de graça, sem disputa e sem perseguição. A lagartixa do gênero Acanthodactylus, principal predadora da espécie, se recolhe quando o solo esquenta demais. A formiga aproveita uma janela de poucos minutos por dia em que o deserto fica cheio de proteína e vazio de inimigos.

O preço da janela é físico. O corpo dela colapsa acima de uma temperatura conhecida e medida, e o chão que ela atravessa está bem acima disso. Correr rápido resolve parte do problema, porque encurta o tempo de exposição e afasta o corpo da camada de ar mais quente rente à areia. Não resolve o resto.

A conta de calor só fecha com o que cobre o exoesqueleto dela, e essa cobertura foi para dentro de um laboratório de física aplicada em Nova York.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Mecanismo

Passadas de 47 por segundo e pelos de três lados

A marca de velocidade sai de três medidas que Pfeffer, Verena Wahl, Matthias Wittlinger e Wolf registraram quadro a quadro. A formiga bate 47 passadas por segundo, cada passada avança cerca de 20,8 milímetros e as pernas oscilam com uma amplitude que, em animais desse tamanho, costuma ser reservada a saltos isolados, não a locomoção contínua.

O modo de andar muda conforme a pressa. Em ritmo baixo ela usa o trípode alternado clássico dos insetos: três pés no chão, três no ar, revezando. Acima de certa velocidade o padrão se desfaz e aparecem fases aéreas, trechos de milissegundos em que os seis pés estão fora do solo ao mesmo tempo. As pernas passam a se mover quase em fase, e o inseto atravessa a areia numa sequência de pequenos voos rasantes.

O tamanho da perna também conta, ao contrário. A perna da Cataglyphis bombycina é mais curta que a de primas do mesmo gênero que vivem em solo firme. A compensação veio pela frequência: passada menor, batida muito mais rápida. Sobre areia solta, pé que fica pouco tempo no chão afunda pouco, e a corrida não se transforma em escavação.

A segunda metade do problema é óptica. Norman Nan Shi e Nanfang Yu, do laboratório de física aplicada da Universidade Columbia, publicaram na Science em 2015 a análise da cobertura de pelos que dá o brilho metálico ao dorso e às laterais do animal. Vistos em corte no microscópio eletrônico, os pelos não são cilíndricos: têm seção triangular, com duas faces planas voltadas para cima e uma face côncava apoiada na cutícula.

Essa geometria faz dois trabalhos ao mesmo tempo, em faixas diferentes do espectro. Nas faixas visível e infravermelho próximo, onde está a maior parte da energia que chega do sol, as faces planas espalham a luz de volta por reflexão total interna, e a formiga devolve ao céu boa parte da radiação antes que ela vire calor no corpo. Já no infravermelho médio, faixa em que corpos aquecidos emitem, a mesma camada trabalha ao contrário e aumenta a emissividade, funcionando como radiador que despeja calor para a abóbada fria do céu.

O ganho medido é grande para um animal de dez miligramas. Sob luz solar simulada, o corpo coberto de pelos ficou entre 5 e 10 graus Celsius mais frio do que um corpo idêntico com os pelos removidos. A diferença é maior do que a margem que separa a formiga viva da formiga cozida.

Há ainda uma terceira camada de defesa, bioquímica. Peter Gehring e Rüdiger Wehner mostraram em 1995, no PNAS, que a espécie sintetiza proteínas de choque térmico antes de encarar o calor, ainda dentro do ninho, e não durante a exposição, como faz a maioria dos organismos estudados. Ela sai de casa com o kit de reparo celular já montado.

 
 

II  Por que Importa

O deserto que virou catálogo de material

O sistema de pelos da formiga-prateada entrou direto na pauta da engenharia de materiais porque resolve, com queratina e geometria, um problema que a indústria tenta resolver com energia. Resfriamento passivo por radiação consiste em fazer uma superfície refletir o que vem do sol e emitir o próprio calor na faixa de 8 a 13 micrômetros, janela em que a atmosfera é transparente e o calor escapa direto para o espaço. Uma superfície bem projetada fica mais fria que o ar ao redor sem gastar um watt.

"Os pelos aumentam não apenas a refletividade da superfície do corpo da formiga nas faixas visível e infravermelho próximo, onde se concentra a radiação solar, mas também a emissividade no infravermelho médio."

Norman Nan Shi e Nanfang Yu, Science, 2015

A promessa prática é chata e enorme: telhado, fachada, tanque de armazenamento, painel solar, roupa de trabalho ao ar livre, carroceria de caminhão frigorífico. Ar-condicionado e refrigeração respondem por uma fatia grande do consumo elétrico mundial, e ela cresce junto com o calor. Toda película que corta a carga térmica antes dela entrar no ambiente é energia que o compressor não precisa gastar.

O que a formiga acrescenta ao repertório é a solução mais barata. Boa parte dos revestimentos de resfriamento radiativo desenvolvidos em laboratório depende de multicamadas nanométricas, deposição a vácuo ou partículas caras. O dorso da Cataglyphis bombycina faz um trabalho comparável com fios de seção triangular arrumados lado a lado, uma estrutura de escala micrométrica que técnicas de moldagem e extrusão conseguem imitar em polímero.

A corrida também virou objeto de engenharia. Robôs de pernas travam em terreno granular: o pé afunda, o passo vira arrasto e a máquina gasta energia cavando. A estratégia da formiga inverte o parâmetro que projetistas costumam maximizar. A perna é curta, o passo é curto, a frequência é altíssima e a corrida ganha fases aéreas, o que encurta o tempo de contato com o grão solto. Laboratórios de locomoção em substrato granular usam esse conjunto de dados como referência de projeto.

Há um ganho de visão de mundo junto com o ganho técnico. A janela térmica em que a formiga-prateada opera é estreitíssima, uma faixa de poucos graus entre o calor que espanta a lagartixa e o calor que desmonta as proteínas dela. O animal vive de explorar uma margem que quase todo o resto do ecossistema trata como zona proibida, e vive bem: colônias inteiras se sustentam de cadáveres que o próprio deserto produz de graça, todo dia, no mesmo horário.

 

Quem banca a edição de hoje

How 2M+ Professionals Stay Ahead on AI

AI is moving fast and most people are falling behind. 

The Rundown AI keeps you ahead of the curve. 

It's a free AI newsletter that keeps you up-to-date on the latest AI news, and teaches you how to apply it in just 5 minutes a day.

Plus, complete the quiz after signing up and they’ll recommend the best AI tools, guides, and courses — tailored to your needs.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  A Fonte

Ulm, 2019, e o brilho que Columbia levou pro laboratório

A medida de velocidade está em "High-speed locomotion in the Saharan silver ant, Cataglyphis bombycina", de Sarah E. Pfeffer, Verena L. Wahl, Matthias Wittlinger e Harald Wolf, publicado no Journal of Experimental Biology em 2019, volume 222, artigo jeb198705. O trabalho registra a corrida com câmeras de alta velocidade em campo, no sul da Tunísia, e reporta os 855 milímetros por segundo, as 47 passadas por segundo e a passada média de 20,8 milímetros.

A óptica dos pelos vem de "Keeping cool: Enhanced optical reflection and radiative heat dissipation in Saharan silver ants", de Norman Nan Shi, Cheng-Chia Tsai, Fernando Camino, Gary D. Bernard, Nanfang Yu e Rüdiger Wehner, publicado na Science em 2015, volume 349, páginas 298 a 301. O artigo descreve a seção triangular dos pelos, a reflexão total interna nas faces planas e o ganho de emissividade no infravermelho médio.

O limite térmico da espécie está em "Desert ants on a thermal tightrope", de Rüdiger Wehner, Alan C. Marsh e Sibylle Wehner, publicado na Nature em 1992, volume 357, página 586. A antecipação bioquímica do choque térmico aparece em "Heat shock protein synthesis and thermotolerance in Cataglyphis, an ant from the Sahara desert", de Peter Gehring e Rüdiger Wehner, publicado no PNAS em 1995, volume 92, páginas 2994 a 2998.

Os asteriscos são honestos. A marca de 855 milímetros por segundo é o pico registrado numa amostra pequena, com o solo em torno de 50 graus e o animal correndo numa pista preparada. A velocidade da espécie sobe com a temperatura do substrato, então o valor não descreve a média de uma saída de forrageio, descreve o teto medido.

A segunda ressalva é sobre o resfriamento. O intervalo de 5 a 10 graus Celsius saiu de comparação entre corpos com e sem pelos sob iluminação controlada, e o peso relativo de cada mecanismo continua em debate: parte dos pesquisadores atribui quase todo o efeito à reflexão no visível e no infravermelho próximo, e trata a emissão em infravermelho médio como contribuição secundária no cenário real de campo.

"Quantos problemas de engenharia já foram resolvidos por um bicho de dez miligramas antes de virarem artigo?"

53,6 graus Celsius. É a temperatura corporal máxima que a Cataglyphis bombycina suporta antes do colapso, segundo Wehner, Marsh e Wehner (Nature, 1992).

 
 

Ebook + app · Ciência Bizarra

Capa do ebook Física de Bar
O app no celular

o ebook, dentro do app

Física de Bar, no ebook e no app.

Explique buraco negro, dupla fenda e física quântica em 60 segundos para impressionar seus amigos. No app, marcado, anotado e seu pra sempre.

Quero o ebook + app →
 
Quiz da edição

Em que ano Sarah Pfeffer e Harald Wolf, da Universidade de Ulm, cronometraram a formiga-prateada do Saara a 855 milímetros por segundo perto de Douz?

A1992
B2019
C1995
D2015

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🔬🔬🔬🔬🔬  ótima 🔬🔬🔬🔬  boa 🔬🔬🔬  ok 🔬🔬  ruim 🔬  péssima
 
Recomendação de Newsletter
Curiosidade do Dia

Curiosidade do Dia

Um assunto novo por dia e você nunca mais fica sem o que contar, em dois minutos. No seu email todo dia às 12:12.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Chame mais um cético pro laboratório

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
EDIÇÃO
Colecionador
 
DO MÊS
🥇
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook Física de Bar
ebook Física de Bar

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
Amanhã nesta news

ED 110 · amanhã às 20:20

Nitinol

A liga de níquel e titânio chamada nitinol volta sozinha ao formato original quando aquecida porque sua rede…

 

Continue curioso. Mirabile dictu.

CIÊNCIA BIZARRA

Parece mentira. Mas é real e está provado

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos