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A tartaruga do rio Fitzroy respira pela cloaca

Na Austrália, a Rheodytes leukops bombeia água por duas bolsas forradas de vasos e fica no fundo do rio sem subir para respirar.

Tartaruga de água doce parada no leito pedregoso de um rio

Tartaruga no fundo do rio Fitzroy, Queensland

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Em 2002, Mark Gordos e Craig Franklin, da Universidade de Queensland, publicaram no Journal of Zoology os registros de tartarugas Rheodytes leukops soltas no rio Fitzroy com transmissores no casco: alguns mergulhos passaram de 24 horas sem uma única subida à superfície.

Uma tartaruga comum de rio não aguenta isso acordada e ativa. Ela respira ar, com pulmões, como qualquer réptil. Mergulha, gasta o oxigênio guardado no corpo e volta para cima para encher o peito de novo, várias vezes por hora.

A Rheodytes leukops (nome científico que junta "rio", "mergulhadora" e "olho branco") vive só na bacia do Fitzroy, no centro de Queensland, na Austrália. O casco mal passa de 25 centímetros. Os olhos têm a íris clara que deu nome à espécie.

Ela foi descrita para a ciência só em 1980, por John Legler e John Cann. Os dois já anotaram a peça mais estranha do bicho: duas bolsas grandes que saem da cloaca (a abertura única por onde a tartaruga elimina fezes, urina e põe ovos), forradas por dentro de dobras finas e cheias de vasos.

Essas dobras funcionam como uma brânquia escondida no fim do corpo. A tartaruga puxa água do rio para dentro das bolsas e empurra de volta, num bombeamento rítmico. Enquanto a água passa, o oxigênio atravessa a parede fina e entra no sangue.

Os pesquisadores australianos deram um apelido pouco elegante ao animal: a tartaruga que respira pelo traseiro. O apelido pegou nos jornais, mas descreve bem o que acontece.

O resultado é um réptil que pode ficar parado no fundo de uma corredeira, debaixo de pedras, enquanto as tartarugas vizinhas sobem a cada poucos minutos.

O truque só funciona em água corrente, limpa e cheia de oxigênio. Para entender por que o fundo da corredeira vale tanto para ela, é preciso olhar como o bombeamento acontece por dentro.

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I  O Mecanismo

Duas bolsas no fim do casco

A cloaca de quase toda tartaruga é uma câmara curta no fim do intestino. Na Rheodytes leukops, dela saem duas bolsas laterais, as bolsas cloacais (sacos de parede fina ligados à cloaca), bem maiores do que nas espécies vizinhas.

Por dentro, a parede dessas bolsas não é lisa. Ela forma papilas (projeções pequenas, como dedos) e dobras que multiplicam a área em contato com a água. Logo abaixo da superfície corre uma rede densa de capilares.

O desenho é o mesmo de uma brânquia de peixe: muita superfície, parede fina e sangue passando perto da água. O oxigênio dissolvido no rio atravessa a parede por difusão (o movimento espontâneo do gás de onde há mais para onde há menos) e o gás carbônico faz o caminho contrário.

Para a troca não parar, a água precisa ser renovada o tempo todo. A tartaruga contrai e relaxa os músculos ao redor da cloaca e bombeia água para dentro e para fora das bolsas dezenas de vezes por minuto.

A tartaruga carrega duas brânquias no fim do corpo e as ventila com a cloaca.

Os pulmões continuam lá. A Rheodytes leukops respira ar quando sobe, como qualquer tartaruga. O que muda é a divisão do trabalho: com água boa, a maior parte do oxigênio do dia pode vir das bolsas, e a subida vira exceção.

Os biólogos chamam isso de respiração bimodal (duas vias de oxigênio no mesmo animal, uma aérea e uma aquática). Várias tartarugas de água doce tiram um pouco de oxigênio da água pela pele e pela boca. A tartaruga do Fitzroy leva o recurso ao extremo.

O ponto fraco é a temperatura. Água quente guarda menos oxigênio e acelera o gasto do corpo. Nos registros de Gordos e Franklin, os mergulhos mais longos apareceram com água fria, no inverno, quando a tartaruga gasta pouco e o rio carrega mais gás dissolvido.

No verão, com água mais quente, a mesma tartaruga sobe mais vezes. As bolsas não dão conta da demanda sozinhas, e os pulmões voltam a pesar na conta.

A margem também muda com a correnteza. Água parada esgota o oxigênio perto do corpo; água corrente renova a camada colada à pele das bolsas a cada segundo.

O mesmo vale para o tamanho. Filhotes têm mais superfície de bolsa em relação ao peso do corpo e gastam menos oxigênio por mergulho. Adultos maiores dependem um pouco mais do pulmão, embora continuem tirando da água uma fatia que nenhuma tartaruga comum alcança.

 
 

II  Por que Importa

A corredeira como pulmão

A respiração pela cloaca explica onde a Rheodytes leukops vive. Ela prefere trechos rasos de corredeira, com fundo de cascalho e pedra, onde a água desce rápida e bem misturada com o ar.

Ali o rio carrega mais oxigênio dissolvido do que nos poços fundos e parados. Para um animal que puxa boa parte do ar pela água, a corredeira funciona como um pulmão externo.

Ficar no fundo também protege. Uma tartaruga que sobe toda hora atravessa a coluna d'água à vista de aves, peixes grandes e crocodilos de água salgada que entram na parte baixa da bacia. Quem fica embaixo de uma pedra some do cardápio.

O tempo submerso ainda libera horas para comer. A Rheodytes leukops se alimenta de larvas de insetos aquáticos, esponjas de água doce e algas raspadas das pedras. Cada subida evitada é tempo a mais no fundo, onde está a comida.

O mesmo órgão que deixa a tartaruga sumir no fundo do rio prende a espécie a um tipo raro de água.

A dependência tem preço. Quando um rio é barrado, a corredeira vira lago. A água desacelera, esquenta, perde oxigênio e acumula lodo sobre o cascalho. As bolsas cloacais perdem o que tinham de melhor.

O ciclo de reprodução também é frágil. As fêmeas põem os ovos em bancos de areia nas margens, que o gado pisoteia e que porcos, raposas e lagartos-monitores reviram. Estudos de campo na bacia registraram perdas altas de ninhos por predação.

A espécie está listada como vulnerável na lei federal de proteção ambiental da Austrália, a EPBC (lei de 1999 que protege espécies e ecossistemas ameaçados). O status pesa em qualquer licença de obra no rio.

Ela não está sozinha. A Elusor macrurus, a tartaruga do rio Mary, e a Elseya albagula, de garganta branca, também respiram pela cloaca em rios de Queensland. As três dividem a mesma vulnerabilidade: precisam de água corrente para respirar.

Para a fisiologia, o grupo virou um laboratório natural. Comparar quanto oxigênio cada espécie tira da água ajuda a entender como um réptil de pulmão voltou a depender do meio aquático, milhões de anos depois de seus ancestrais terem saído dele.

A comparação também orienta o manejo. Saber quanto oxigênio a água precisa carregar para a tartaruga ficar no fundo dá aos órgãos ambientais um número a cobrar de quem mexe na vazão do rio, em vez de uma preocupação genérica com a fauna.

 

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III  A Fonte

Transmissores no casco em Gainsford

O estudo de Mark Gordos e Craig Franklin saiu no Journal of Zoology em 2002, volume 258. O título em inglês fala em comportamento de mergulho de duas tartarugas australianas de respiração bimodal, em ambiente natural.

O segundo animal da comparação foi a Emydura macquarii, tartaruga comum da mesma bacia, que respira quase só pelo pulmão. Ter as duas no mesmo trecho de rio permitiu separar o efeito das bolsas do efeito da água e da temperatura.

O trabalho de campo aconteceu num trecho do Fitzroy perto de Gainsford, em Queensland central. A equipe capturou as tartarugas, colou transmissores acústicos no casco e devolveu cada animal ao ponto de captura.

Os transmissores mandavam a profundidade por som. Receptores na margem registravam quando a tartaruga estava no fundo e quando subia, por dias seguidos, sem ninguém mergulhando atrás dela.

Os números separaram as duas espécies. A Emydura macquarii subia com frequência, como esperado. A Rheodytes leukops ficava no fundo por muito mais tempo, e os mergulhos mais longos passaram de um dia inteiro.

O transmissor no casco trocou a observação na beira do rio por um registro contínuo do fundo.

Em 2003, Gordos, Franklin e Colin Limpus voltaram ao tema no Canadian Journal of Zoology, com dados de estações diferentes. A diferença entre inverno e verão confirmou o peso da temperatura: água fria, mergulho longo; água quente, mais subidas.

Outros grupos mediram o oxigênio em laboratório. Tartarugas em tanques com ar ao alcance e água oxigenada mostraram que a via aquática responde por uma parte grande do consumo total, maior do que em qualquer outra tartaruga medida até então.

Ficou uma pergunta que os transmissores não resolvem: como a tartaruga regula o ritmo do bombeamento conforme a água muda. O controle nervoso dessas contrações segue pouco descrito.

Também falta saber quanto do mergulho longo vem das bolsas e quanto vem de um metabolismo mais lento no frio. Os dois efeitos aparecem juntos no inverno, e separar um do outro exige medir oxigênio no sangue de tartarugas soltas, um trabalho que o rio torna difícil.

O que o estudo de 2002 garante é o registro: tartarugas livres, no rio de verdade, passando horas a fio no fundo da corredeira enquanto a espécie vizinha subia.

Mais de 24 horas sem subir à superfície, registradas em tartarugas soltas no rio (Gordos e Franklin, Journal of Zoology, 2002). Uma barragem nova pode mudar esse fundo. Qual obra aprovada em 2020 no rio Fitzroy ameaça as corredeiras onde essa tartaruga respira?

 
 
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