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A trepadeira que copia a folha da árvore em que sobe

Nas florestas do sul do Chile, a Boquila trifoliolata muda formato, tamanho e cor da folha conforme a planta que a sustenta.

Trepadeira de folhas pequenas subindo por um arbusto de folhas parecidas na floresta chilena

Trepadeira imitando as folhas do arbusto vizinho

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Em 2014, os ecólogos Ernesto Gianoli e Fernando Carrasco-Urra, da Universidade de Concepción, mediram folhas de uma trepadeira chilena subindo em árvores diferentes. Em cada árvore, a folha da trepadeira tinha virado outra: maior, menor, mais escura, mais clara, conforme a planta que a sustentava.

O resultado saiu na revista Current Biology. A trepadeira se chama Boquila trifoliolata, e no sul do Chile os moradores a conhecem como pilpil-voqui. Ela cresce na floresta temperada úmida, entre o Chile central e a Patagônia argentina.

Sozinha, rastejando pelo chão, a planta tem folhas compostas de três folíolos (as partes menores que formam uma folha, como os três dedos de um trevo). São folhas verdes, lisas e comuns, que ninguém pararia para olhar.

Quando encontra um tronco e começa a subir, a regra muda. A folha que nasce encostada na folhagem de outra espécie copia a vizinha: o comprimento, a área, o tom de verde, o tamanho do pecíolo (o cabinho que prende a folha ao ramo) e, em alguns casos, até a ponta em espinho.

O caso mais estranho aparece quando um único ramo passa por duas árvores. A parte do caule apoiada na primeira árvore imita a primeira; a parte que alcança a segunda imita a segunda. O mesmo indivíduo, com o mesmo DNA, carrega dois disfarces diferentes.

Na biologia, esse fenômeno tem nome: mimetismo (quando um ser vivo se parece com outro e ganha vantagem com a semelhança). Bichos fazem com frequência. O bicho-pau parece graveto, a borboleta-vice-rei parece a monarca venenosa.

Planta que imita planta é raro. E nenhuma outra conhecida troca de modelo conforme o vizinho, folha por folha, sem tocar a folha copiada.

A pergunta que Gianoli e Carrasco-Urra deixaram aberta é de engenharia: como uma trepadeira sem olhos descobre o formato de uma folha que está a centímetros de distância? A resposta ainda está em disputa, e as hipóteses vão de gases no ar a bactérias viajantes.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Mecanismo

Folha que muda no meio do caule

O trabalho de Ernesto Gianoli e Fernando Carrasco-Urra foi feito no Parque Nacional Puyehue, na região de Los Lagos, sul do Chile. Os dois escolheram trepadeiras de Boquila trifoliolata apoiadas em plantas de espécies diferentes e compararam cada folha da trepadeira com a folha da hospedeira (a planta que serve de apoio).

Em seguida, mediram as mesmas características em folhas da própria Boquila que cresciam sem apoio, rastejando pelo chão. Essas funcionavam como grupo de controle: mostravam a folha "padrão" da espécie, sem modelo para copiar.

A folha da trepadeira ficava mais parecida com a da hospedeira do que com a de outra Boquila crescendo a poucos metros dali.

A semelhança não se limitava ao tamanho. Os pesquisadores registraram diferenças de cor, de espessura, de formato da borda e de comprimento do pecíolo, todas puxadas na direção da planta vizinha. Em hospedeiras de folha com ponta afiada, a Boquila produzia folhas com ponta afiada.

Um detalhe do método pesa no resultado. A trepadeira imitava a folha mais próxima dela, mesmo quando o tronco que a sustentava pertencia a outra espécie. O modelo copiado era o vizinho imediato, e não necessariamente a planta em que ela se enroscava.

A cópia também tinha limite físico. Folhas da Boquila que ficavam a uma distância maior da folhagem hospedeira mostravam semelhança menor. Quanto mais longe do modelo, mais a folha voltava ao desenho comum da espécie.

Esse padrão de distância é a pista principal para o mecanismo, e Gianoli e Carrasco-Urra propuseram duas explicações no próprio artigo.

A primeira envolve compostos voláteis (substâncias químicas que as plantas liberam no ar em forma de gás). Cada espécie de planta solta uma mistura própria. A Boquila poderia "cheirar" a vizinha e ajustar genes de crescimento da folha conforme a mistura recebida.

A segunda envolve transferência horizontal de genes (passagem de material genético entre organismos que não são pai e filho). Micróbios que vivem nas folhas da hospedeira poderiam migrar para a trepadeira e carregar junto instruções que alteram o formato da folha.

Nenhuma das duas foi confirmada em laboratório até agora. As duas explicam por que a proximidade importa, e nenhuma explica como tantos detalhes diferentes seriam copiados ao mesmo tempo.

 
 

II  Por que Importa

Menos mordida para quem se disfarça

Uma planta que gasta energia para mudar de folha precisa ganhar alguma vantagem com o gasto. Gianoli e Carrasco-Urra procuraram essa vantagem nos insetos e caracóis que comem folhas na floresta de Puyehue.

A comparação foi entre três grupos: folhas da Boquila que rastejavam sem apoio, folhas que subiam em árvores sem folhagem por perto e folhas encostadas numa hospedeira com folhas. Os pesquisadores contaram quanto de cada folha tinha sido comido.

As folhas disfarçadas foram as menos comidas, e as que rastejavam no chão, as mais atacadas.

A leitura dos autores é que o disfarce engana o herbívoro (o animal que se alimenta de plantas). Muitas hospedeiras da Boquila têm folhas duras, amargas ou pouco nutritivas. Se a trepadeira se parece com uma delas, o inseto que evita aquela espécie também passa reto pela imitação.

O benefício tem um preço. A planta precisa manter várias versões possíveis de folha e ligar a certa no lugar certo, o que exige um controle fino da expressão de genes ao longo do mesmo caule.

A descoberta mexeu com uma discussão antiga da botânica: a de que plantas percebem o ambiente de formas mais complexas do que se imaginava. Em 2016, os fisiologistas vegetais František Baluška, da Universidade de Bonn, e Stefano Mancuso, da Universidade de Florença, publicaram na revista Trends in Plant Science um artigo sugerindo que a Boquila poderia enxergar.

A proposta retomava uma ideia de 1905 do botânico austríaco Gottlieb Haberlandt: a de que células da superfície da folha funcionariam como ocelos (olhos simples, capazes de captar luz e forma, como os de alguns vermes). A lente seria a própria parede da célula.

Em 2022, Jacob White e Felipe Yamashita publicaram na revista Plant Signaling & Behavior um teste com folhas de plástico. Eles cultivaram Boquila trifoliolata em vaso, perto de uma planta artificial, e relataram que as folhas novas da trepadeira passaram a imitar a forma das folhas falsas.

Se o resultado se confirmar, as hipóteses dos gases e dos micróbios perdem força, já que plástico não solta a mistura química de uma planta viva nem abriga as bactérias de uma folha. Sobraria alguma forma de percepção visual.

O experimento, porém, foi feito com poucas plantas, fora da floresta e sem repetição independente publicada. O próprio Gianoli questionou em artigo de resposta a leitura visual e defendeu que o teste do plástico ainda não separa as explicações. Até hoje, ninguém demonstrou uma célula de planta formando imagem.

 

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III  A Fonte

Current Biology, 2014

O artigo que colocou a Boquila no mapa da ciência saiu em maio de 2014, no volume 24 da Current Biology, com o título "Leaf mimicry in a climbing plant protects against herbivory" (mimetismo foliar numa trepadeira protege contra herbívoros). Tem só quatro páginas.

A planta, em si, já era conhecida havia muito tempo. O naturalista francês Joseph Decaisne descreveu a espécie no século 19, e ela pertence à família Lardizabalaceae (um grupo pequeno de trepadeiras da Ásia e da América do Sul). Nenhum botânico tinha reparado que as folhas dela mudavam de acordo com a vizinhança.

Gianoli contou em entrevistas que notou o fenômeno por acaso, em trabalho de campo sobre trepadeiras. Uma folha que ele achou ser de um arbusto estava presa a um caule fino que não era do arbusto. Era da Boquila.

Até 2014, o mimetismo vegetal conhecido era fixo. As ervas-de-passarinho da Austrália (plantas parasitas que vivem presas aos galhos de árvores) se parecem com as árvores que parasitam, mas cada espécie copia sempre o mesmo hospedeiro. A Boquila foi a primeira planta registrada imitando vários modelos diferentes.

O artigo tem limites que os autores deixam explícitos. A coleta foi feita num único parque e numa única estação do ano. O dano por herbívoro foi medido nas folhas, sem identificar quais animais comiam o quê.

O mecanismo continua sem resposta. Nenhuma das três hipóteses, gases no ar, genes trazidos por micróbios ou visão por células da folha, passou até agora num teste que exclua as outras duas. Ninguém sabe como a Boquila copia a vizinha, e o motivo é concreto: falta o experimento que controle luz, ar e micróbios ao mesmo tempo, com a planta crescendo na mata.

Também não se sabe se o disfarce passa de geração para geração. As sementes da Boquila produzem mudas com folhas comuns, o que indica que a imitação acontece no próprio indivíduo, a cada folha nova, e não fica gravada na herança.

A pesquisa segue no Chile. Gianoli, hoje na Universidade de La Serena, continua publicando sobre trepadeiras da floresta temperada, e o parque de Puyehue virou destino de pesquisadores estrangeiros atrás da planta.

"Uma folha consegue saber com quem se parece sem nunca ter tocado nela?"

2 hospedeiras diferentes, 1 caule só. Foi o que Gianoli e Carrasco-Urra registraram numa mesma trepadeira na floresta de Puyehue (Current Biology, 2014).

 
 

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No experimento de Gianoli e Carrasco-Urra no Parque Nacional Puyehue, qual grupo de folhas da Boquila trifoliolata foi o menos comido por insetos e caracóis?

AAs que rastejavam sem apoio pelo chão
BAs que subiam em árvores sem folhagem por perto
CAs encostadas numa hospedeira com folhas, disfarçadas
DNão houve diferença entre os três grupos

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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