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1 leitor escolheu Neve de Melancia. Sai em 02/10.
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A trepadeira que copia a folha da árvore em que sobe
Nas florestas do sul do Chile, a Boquila trifoliolata muda formato, tamanho e cor da folha conforme a planta que a sustenta.
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Trepadeira imitando as folhas do arbusto vizinho
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Em 2014, os ecólogos Ernesto Gianoli e Fernando Carrasco-Urra, da Universidade de Concepción, mediram folhas de uma trepadeira chilena subindo em árvores diferentes. Em cada árvore, a folha da trepadeira tinha virado outra: maior, menor, mais escura, mais clara, conforme a planta que a sustentava.
O resultado saiu na revista Current Biology. A trepadeira se chama Boquila trifoliolata, e no sul do Chile os moradores a conhecem como pilpil-voqui. Ela cresce na floresta temperada úmida, entre o Chile central e a Patagônia argentina.
Sozinha, rastejando pelo chão, a planta tem folhas compostas de três folíolos (as partes menores que formam uma folha, como os três dedos de um trevo). São folhas verdes, lisas e comuns, que ninguém pararia para olhar.
Quando encontra um tronco e começa a subir, a regra muda. A folha que nasce encostada na folhagem de outra espécie copia a vizinha: o comprimento, a área, o tom de verde, o tamanho do pecíolo (o cabinho que prende a folha ao ramo) e, em alguns casos, até a ponta em espinho.
O caso mais estranho aparece quando um único ramo passa por duas árvores. A parte do caule apoiada na primeira árvore imita a primeira; a parte que alcança a segunda imita a segunda. O mesmo indivíduo, com o mesmo DNA, carrega dois disfarces diferentes.
Na biologia, esse fenômeno tem nome: mimetismo (quando um ser vivo se parece com outro e ganha vantagem com a semelhança). Bichos fazem com frequência. O bicho-pau parece graveto, a borboleta-vice-rei parece a monarca venenosa.
Planta que imita planta é raro. E nenhuma outra conhecida troca de modelo conforme o vizinho, folha por folha, sem tocar a folha copiada.
A pergunta que Gianoli e Carrasco-Urra deixaram aberta é de engenharia: como uma trepadeira sem olhos descobre o formato de uma folha que está a centímetros de distância? A resposta ainda está em disputa, e as hipóteses vão de gases no ar a bactérias viajantes.
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I O Mecanismo
Folha que muda no meio do caule
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O trabalho de Ernesto Gianoli e Fernando Carrasco-Urra foi feito no Parque Nacional Puyehue, na região de Los Lagos, sul do Chile. Os dois escolheram trepadeiras de Boquila trifoliolata apoiadas em plantas de espécies diferentes e compararam cada folha da trepadeira com a folha da hospedeira (a planta que serve de apoio).
Em seguida, mediram as mesmas características em folhas da própria Boquila que cresciam sem apoio, rastejando pelo chão. Essas funcionavam como grupo de controle: mostravam a folha "padrão" da espécie, sem modelo para copiar.
A folha da trepadeira ficava mais parecida com a da hospedeira do que com a de outra Boquila crescendo a poucos metros dali. |
A semelhança não se limitava ao tamanho. Os pesquisadores registraram diferenças de cor, de espessura, de formato da borda e de comprimento do pecíolo, todas puxadas na direção da planta vizinha. Em hospedeiras de folha com ponta afiada, a Boquila produzia folhas com ponta afiada.
Um detalhe do método pesa no resultado. A trepadeira imitava a folha mais próxima dela, mesmo quando o tronco que a sustentava pertencia a outra espécie. O modelo copiado era o vizinho imediato, e não necessariamente a planta em que ela se enroscava.
A cópia também tinha limite físico. Folhas da Boquila que ficavam a uma distância maior da folhagem hospedeira mostravam semelhança menor. Quanto mais longe do modelo, mais a folha voltava ao desenho comum da espécie.
Esse padrão de distância é a pista principal para o mecanismo, e Gianoli e Carrasco-Urra propuseram duas explicações no próprio artigo.
A primeira envolve compostos voláteis (substâncias químicas que as plantas liberam no ar em forma de gás). Cada espécie de planta solta uma mistura própria. A Boquila poderia "cheirar" a vizinha e ajustar genes de crescimento da folha conforme a mistura recebida.
A segunda envolve transferência horizontal de genes (passagem de material genético entre organismos que não são pai e filho). Micróbios que vivem nas folhas da hospedeira poderiam migrar para a trepadeira e carregar junto instruções que alteram o formato da folha.
Nenhuma das duas foi confirmada em laboratório até agora. As duas explicam por que a proximidade importa, e nenhuma explica como tantos detalhes diferentes seriam copiados ao mesmo tempo.
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II Por que Importa
Menos mordida para quem se disfarça
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Uma planta que gasta energia para mudar de folha precisa ganhar alguma vantagem com o gasto. Gianoli e Carrasco-Urra procuraram essa vantagem nos insetos e caracóis que comem folhas na floresta de Puyehue.
A comparação foi entre três grupos: folhas da Boquila que rastejavam sem apoio, folhas que subiam em árvores sem folhagem por perto e folhas encostadas numa hospedeira com folhas. Os pesquisadores contaram quanto de cada folha tinha sido comido.
As folhas disfarçadas foram as menos comidas, e as que rastejavam no chão, as mais atacadas. |
A leitura dos autores é que o disfarce engana o herbívoro (o animal que se alimenta de plantas). Muitas hospedeiras da Boquila têm folhas duras, amargas ou pouco nutritivas. Se a trepadeira se parece com uma delas, o inseto que evita aquela espécie também passa reto pela imitação.
O benefício tem um preço. A planta precisa manter várias versões possíveis de folha e ligar a certa no lugar certo, o que exige um controle fino da expressão de genes ao longo do mesmo caule.
A descoberta mexeu com uma discussão antiga da botânica: a de que plantas percebem o ambiente de formas mais complexas do que se imaginava. Em 2016, os fisiologistas vegetais František Baluška, da Universidade de Bonn, e Stefano Mancuso, da Universidade de Florença, publicaram na revista Trends in Plant Science um artigo sugerindo que a Boquila poderia enxergar.
A proposta retomava uma ideia de 1905 do botânico austríaco Gottlieb Haberlandt: a de que células da superfície da folha funcionariam como ocelos (olhos simples, capazes de captar luz e forma, como os de alguns vermes). A lente seria a própria parede da célula.
Em 2022, Jacob White e Felipe Yamashita publicaram na revista Plant Signaling & Behavior um teste com folhas de plástico. Eles cultivaram Boquila trifoliolata em vaso, perto de uma planta artificial, e relataram que as folhas novas da trepadeira passaram a imitar a forma das folhas falsas.
Se o resultado se confirmar, as hipóteses dos gases e dos micróbios perdem força, já que plástico não solta a mistura química de uma planta viva nem abriga as bactérias de uma folha. Sobraria alguma forma de percepção visual.
O experimento, porém, foi feito com poucas plantas, fora da floresta e sem repetição independente publicada. O próprio Gianoli questionou em artigo de resposta a leitura visual e defendeu que o teste do plástico ainda não separa as explicações. Até hoje, ninguém demonstrou uma célula de planta formando imagem.
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