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Ciência Bizarra · O bicho que regenera o próprio cérebro e nunca cicatriza
Ciência Bizarra

EDIÇÃO Nº 027

O FENÔMENO DO DIA

O bicho que regenera o próprio cérebro e nunca cicatriza

Axolote, lagos do Vale do México

VERIFICADO, NATURE, 2018

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Axolote rosado de guelras externas plumosas submerso em água límpida, alta nitidez, sem texto nem pessoas

A DECLARAÇÃO

Corte a perna de um axolote e ela cresce de novo, inteira, com osso, músculo e nervo. Tire um pedaço do coração, da medula ou até do cérebro e ele reconstrói o que faltava. Sem cicatriz, repetidas vezes ao longo da vida.

Corte a perna de um axolote e ela volta inteira, com osso, nervo e músculo. Tire um pedaço do cérebro dele e ele reconstrói, sem cicatriz, repetidas vezes. Enquanto isso, nós nos orgulhamos de fechar um corte na pele.

I

O Mecanismo

O axolote é uma salamandra mexicana que nunca abandona a fase larval: passa a vida toda na água, com guelras externas plumosas, como um girino que decidiu virar adulto sem nunca crescer. E essa eterna juventude tem um efeito mais sério do que a aparência.

Onde quase todo vertebrado fecha uma ferida com tecido cicatricial, o axolote faz outra coisa. Ele reconstrói a parte que perdeu de verdade, peça por peça.

Quando um membro é amputado, as células ao redor do corte não viram cicatriz. Elas voltam atrás no tempo. Músculo, osso e cartilagem perto da ferida perdem a especialização e formam uma bolha de células-tronco chamada blastema, um botão regenerativo que se comporta como o broto de um embrião.

A partir desse botão o corpo refaz o mapa do membro na ordem certa, do ombro até a ponta dos dedos, religando nervo e vaso no caminho. E não para na perna.

O mesmo princípio reconstrói partes do coração, trechos da medula espinhal seccionada e até regiões do cérebro lesionadas, algo que num mamífero seria perda permanente.

O preço dessa façanha está no genoma, e foi aí que a estranheza ganhou número. O DNA do axolote tem cerca de 32 bilhões de pares de bases, dez vezes o genoma humano, o maior já sequenciado por completo até então.

Boa parte é repetição e DNA móvel, mas escondidos nesse volume estão os genes que orquestram o blastema. Sequenciar esse colosso permitiu enfim ler, gene a gene, o manual de instruções de um animal que trata a perda de um órgão como um inconveniente temporário.

II

Por que Importa

A cicatriz, no resto de nós, é o atalho.

Quando você se corta, o corpo prioriza fechar a brecha rápido para não morrer de infecção, e o preço é um remendo de tecido que não funciona como o original: o coração infartado vira fibrose, a medula rompida não reconecta, o nervo cortado raramente volta inteiro.

O axolote prova que a regeneração perfeita não é ficção biológica, é uma rota que existe e que nós, em algum ponto da evolução, trocamos por velocidade.

Entender quais genes ele liga, e que nós ainda carregamos adormecidos, é o que move a medicina regenerativa: não fabricar um órgão de fora, mas convencer o nosso próprio corpo a refazê-lo do jeito que esse anfíbio refaz.

III

A Fonte

Nowoshilow, S., Schloissnig, S., Fei, J.-F., et al. (2018). The axolotl genome and the evolution of key tissue formation regulators. Nature, 554, 50-55.

Peer-reviewed. Primeiro sequenciamento completo do genoma do axolote (Ambystoma mexicanum), com cerca de 32 bilhões de pares de bases, dez vezes o genoma humano, identificando genes ligados à formação de tecido e à regeneração via blastema. Consórcio liderado pelo Max Planck Institute e pela TU Dresden.

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Verdadeiro ou Falso: ao regenerar um membro, o axolote faz células já especializadas perto do corte voltarem atrás e formarem um blastema, em vez de fechar a ferida com cicatriz.

VVerdadeiro FFalso

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Na edição de amanhã...

A luz foi parada por completo e depois liberada intacta 🔬

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