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ED 125

Barry Marshall bebeu uma cultura de bactéria para provar a origem da gastrite

Em 1984, um médico australiano se infectou de propósito com Helicobacter pylori e mudou o tratamento da úlcera no mundo inteiro.

Copo de vidro com caldo turvo amarelado sobre bancada de laboratório antigo, placas de Petri ao fundo

Copo de caldo turvo numa bancada de laboratório

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Numa manhã de 1984, no laboratório do Fremantle Hospital, no oeste da Austrália, o gastroenterologista Barry Marshall, então com 32 anos, mexeu um caldo turvo num copo e bebeu tudo. O líquido carregava bactérias raspadas de uma placa de cultura, colhidas do estômago de um paciente com gastrite. Dias antes, Marshall tinha passado por uma endoscopia para confirmar que o próprio estômago estava limpo.

Ele não contou à mulher, Adrienne, e não pediu autorização ao comitê de ética do hospital. Sabia que as duas respostas seriam negativas. Havia dois anos tentava convencer a medicina de que gastrite e úlcera tinham causa infecciosa, e esbarrava numa certeza de manual: micróbio nenhum sobrevive no ácido do estômago.

Faltava uma prova que os colegas aceitassem. Os postulados de Koch, os critérios que o médico alemão Robert Koch fixou no século XIX para ligar um micróbio a uma doença, exigem que o agente isolado provoque o quadro num organismo saudável. Marshall tentou infectar leitões, e os leitões seguiram saudáveis. Restou o único voluntário disponível sem papelada.

Cinco dias depois vieram os vômitos, de madrugada, sem aviso. Depois veio um hálito podre, que Adrienne notou e cobrou. No décimo dia, uma nova endoscopia mostrou a mucosa do estômago inflamada e povoada por bactérias em forma de espiral, justamente onde antes não havia nenhuma.

A biópsia do décimo quarto dia confirmou a gastrite, e Marshall começou a tomar antibiótico. Só então contou a Adrienne, que exigiu o tratamento imediato. O médico tinha o que queria: um estômago sadio, uma bactéria cultivada, uma doença provocada e a mesma bactéria recuperada da lesão.

A prova, porém, deixou em aberto uma pergunta que a biologia precisava responder para que alguém a levasse a sério: como um organismo de poucos milésimos de milímetro atravessa um banho de ácido e escolhe justamente o estômago para morar.

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I  O Mecanismo

A bactéria que fabrica o próprio escudo

O inquilino se chama Helicobacter pylori, nome que junta hélice, pela forma de saca-rolhas, e pylori (do piloro, a saída do estômago), a região onde ele costuma se instalar. Mede de 2 a 4 milésimos de milímetro e carrega num dos polos um tufo de flagelos, filamentos que giram como hélices de barco.

O estômago em jejum mantém um pH (a escala de acidez, em que valores baixos indicam mais ácido) perto de 1 ou 2, faixa em que a maior parte das bactérias se desmancha em minutos. O H. pylori não enfrenta esse banho: atravessa-o depressa e se esconde.

O esconderijo fica na camada de muco que forra a parede do estômago. Junto às células, o muco é quase neutro, porque o próprio órgão precisa se proteger do suco que fabrica. A bactéria nada até ali, girando o corpo em espiral, e se enterra no gel como um parafuso na madeira.

O truque central é químico: a bactéria transforma um resíduo do corpo humano num escudo contra o ácido.

A ferramenta desse truque é a urease, uma enzima (proteína que acelera uma reação química) produzida em quantidade enorme pelo micróbio. A urease quebra a ureia, resíduo que circula no sangue e vaza para o estômago, em amônia e gás carbônico. A amônia neutraliza o ácido em volta da célula e cria uma nuvem alcalina onde a bactéria sobrevive durante a travessia.

Instalado, o H. pylori se prende às células com adesinas, proteínas de superfície que funcionam como ganchos. Algumas cepas injetam nas células a toxina CagA (proteína associada ao gene A de citotoxina), que desorganiza o funcionamento celular, e liberam a VacA (citotoxina vacuolizante), que abre bolhas dentro das células e as enfraquece.

O sistema imune reage, manda glóbulos brancos para a mucosa e não consegue alcançar a bactéria dentro do muco. A inflamação vira crônica, e o nome clínico dela é gastrite. Quando a defesa da parede cede num ponto, o ácido corrói o tecido exposto e abre a ferida chamada úlcera.

Marshall sentiu apenas o primeiro degrau dessa escada. A infecção dele ficou na gastrite aguda, sem úlcera, e cedeu com o tinidazol, um antibiótico, depois de duas semanas. Os vômitos foram o sinal da mucosa inflamada; o hálito podre vinha, provavelmente, da amônia que a urease soltava no estômago.

 
 

II  Por que Importa

A úlcera deixou de ser caso de nervos

Até a década de 1980, úlcera era tratada como doença de temperamento. Estresse, café, pimenta e excesso de ácido formavam a explicação oficial, e o tratamento seguia essa lógica: dieta branda, antiácido e, nos casos graves, cirurgia para cortar parte do estômago ou o nervo vago, que comanda a secreção ácida.

A indústria farmacêutica vivia bem com o modelo. A cimetidina, remédio que reduz a produção de ácido, virou um dos medicamentos mais vendidos do planeta nos anos 1980, e o paciente tomava o comprimido por anos, porque a úlcera voltava assim que a medicação parava.

A bactéria mudou a conta. Um tratamento de uma a duas semanas, com dois antibióticos e um bloqueador de ácido, elimina a infecção e reduz de forma drástica o retorno da úlcera. Em 1988, Marshall e colegas publicaram no The Lancet um ensaio duplo-cego (em que nem paciente nem médico sabem quem recebe o remédio) mostrando que a úlcera duodenal voltava bem menos nos pacientes curados da infecção.

A doença que exigia comprimido para a vida inteira passou a ter cura em quinze dias.

A adesão da medicina levou uma década. Em 1994, o painel de consenso dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos recomendou antibiótico para todo paciente com úlcera e infecção confirmada. No mesmo ano, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, braço da Organização Mundial da Saúde, classificou o H. pylori como carcinógeno do grupo 1, a categoria das causas comprovadas de câncer, pelo papel no câncer gástrico.

A escala do problema aparece numa revisão de James Hooi e colegas publicada na revista Gastroenterology em 2017: cerca de 4,4 bilhões de pessoas carregavam a bactéria em 2015, mais da metade da humanidade. A maioria nunca sente nada. O contágio costuma ocorrer na infância, dentro de casa, pela saliva ou por água e alimento contaminados.

O diagnóstico ganhou uma solução elegante, apoiada na mesma urease. No teste respiratório, o paciente bebe ureia marcada com uma forma rastreável de carbono. Se a bactéria estiver no estômago, quebra a ureia, e o carbono marcado sai no ar expirado minutos depois. Marshall ajudou a levar o exame à clínica no fim dos anos 1980.

A vitória tem prazo. Em 2017, a Organização Mundial da Saúde incluiu o H. pylori resistente à claritromicina, um dos antibióticos do tratamento padrão, na lista de bactérias de prioridade alta para pesquisa de remédios novos. O tratamento que curou milhões depende agora de testar a sensibilidade da cepa antes de receitar.

 

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III  A Fonte

Medical Journal of Australia, 1985, e o Nobel de 2005

O relato do experimento saiu no Medical Journal of Australia em 1985, sob o título Attempt to fulfil Koch's postulates for pyloric Campylobacter (tentativa de cumprir os postulados de Koch para o Campylobacter pilórico), assinado por Barry Marshall, John Armstrong, David McGechie e Ross Glancy. Na época, a bactéria era chamada Campylobacter pyloridis; o gênero próprio, Helicobacter, veio em 1989.

A descoberta começou com outro homem. Em 1979, o patologista Robin Warren, do Royal Perth Hospital, reparou em bactérias curvas nas biópsias de pacientes com estômago inflamado. Marshall, residente em busca de um projeto de pesquisa, juntou-se a ele em 1981. A dupla descreveu o achado em cartas ao The Lancet em 1983 e num artigo na mesma revista em 1984.

O cultivo quase não aconteceu. Segundo o texto autobiográfico que Marshall entregou à Fundação Nobel em 2005, dezenas de tentativas falharam porque as placas eram descartadas após dois dias. No feriado de Páscoa de 1982, uma leva ficou esquecida na estufa por cinco dias, e as colônias apareceram: a bactéria cresce devagar.

"Todos estavam contra mim, mas eu sabia que estava certo."

Barry Marshall, entrevista à revista Discover, 2010

O experimento tem limites que o próprio autor reconheceu. Foi feito numa única pessoa, provou a gastrite e não a úlcera, e a infecção durou pouco. A ligação com a úlcera veio dos ensaios clínicos com antibiótico, citados na seção anterior, e não do copo de caldo.

Um segundo voluntário mostrou o outro lado da moeda. Em 1987, o microbiologista neozelandês Arthur Morris relatou no New Zealand Medical Journal que tinha bebido a bactéria e ficou com gastrite persistente, que resistiu a vários tratamentos por cerca de três anos. O caso dele mostrou que a infecção, deixada sozinha, tende a ficar.

Em 2005, o Instituto Karolinska concedeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina a Warren e Marshall pela descoberta da bactéria e do papel dela na gastrite e na úlcera péptica. O prêmio foi dividido em partes iguais.

Uma dúvida persiste no campo: por que só uma parcela dos infectados adoece. As toxinas da cepa, a genética de quem hospeda e a dieta entram na explicação, mas nenhum estudo conseguiu ainda prever, pessoa a pessoa, quem vai desenvolver úlcera ou câncer. Faltam acompanhamentos longos com a cepa e o paciente sequenciados.

"Quantas certezas de manual você carrega hoje sem nunca ter visto a prova?"

Dez dias. Foi o tempo que o estômago de Barry Marshall levou para exibir a gastrite provocada pelo copo de 1984, segundo o artigo dele no Medical Journal of Australia em 1985.

 
 
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Quiz da edição

Para atravessar o ácido do estômago, o H. pylori usa a enzima urease para quebrar a ureia. Qual substância resultante neutraliza o ácido em volta da bactéria?

ABicarbonato de sódio
BOxigênio
CAmônia
DÁcido lático

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