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Elefantes do Quênia se chamam pelo nome em 469 roncos

Michael Pardo achou rótulos individuais nas chamadas de Amboseli e Samburu e testou com uma caixa de som na savana.

Família de elefantes-africanos reunida na savana seca ao entardecer

Família de elefantes reunida na savana do Quênia

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Em junho de 2024, o ecólogo Michael Pardo, da Universidade Estadual do Colorado, publicou na revista Nature Ecology and Evolution a análise de 469 roncos de elefantes-africanos gravados em Amboseli e em Samburu, no Quênia. Um programa de computador acertou a quem cada chamada se dirigia em 27,5% das vezes, contra pouco mais de 8% esperados por puro acaso.

Traduzido: dentro do ronco que uma fêmea solta para chamar outra, existe um pedaço de som que aponta para um elefante específico. Um rótulo individual, o equivalente mais próximo de um nome já encontrado num animal selvagem.

As gravações não nasceram para esse estudo. Algumas vinham de 1986, feitas por pesquisadores que acompanham as famílias de Amboseli há décadas, ao pé do Kilimanjaro. Outras saíram de Samburu e da reserva vizinha de Buffalo Springs, no norte seco do país, onde a organização Save the Elephants segue os mesmos grupos desde os anos 1990.

Em cada gravação usada, a equipe sabia quem tinha chamado e quem tinha respondido. Era a condição para a pergunta funcionar: se o som traz um nome, ele precisa mudar de acordo com o destinatário, e não só de acordo com quem fala.

Faltava saber se os próprios elefantes ouviam o rótulo. Na savana, a equipe escondia uma caixa de som perto de um animal e tocava uma chamada antiga dirigida a ele. Em outro dia, para o mesmo animal, tocava uma chamada da mesma fêmea dirigida a outro elefante.

A resposta veio em comportamento. Diante da chamada com o próprio rótulo, o elefante virava o corpo para a caixa mais depressa, roncava de volta mais vezes e às vezes caminhava até ela. Diante da chamada endereçada a outro, reagia pouco.

O curioso é o formato do nome. Golfinhos e papagaios também se chamam, mas imitando o som típico do outro. Os elefantes de Pardo não imitam ninguém: o rótulo parece um som arbitrário, combinado entre eles, como uma palavra humana.

Para entender como alguém acha um nome dentro de um ronco, é preciso começar pelo próprio ronco, um som grave a ponto de escapar do ouvido humano.

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I  O Mecanismo

Um nome escondido no grave

O ronco é a chamada mais comum do elefante-africano. Sai da laringe com a boca fechada e vibra também pela tromba. Boa parte da energia fica no infrassom (som grave demais para o ouvido humano), e a vibração viaja longe pela savana aberta.

As famílias de elefantes vivem espalhadas. Uma matriarca, a fêmea mais velha que conduz o grupo, pode perder de vista as filhas atrás de um morro ou dentro do capim alto. O ronco mantém o grupo amarrado à distância, como uma linha telefônica sem fio.

Para procurar o nome, Pardo transformou cada ronco num conjunto de medidas acústicas: a altura do som, a forma como ela sobe e desce, a distribuição da energia entre as frequências e a duração.

Depois entrou o computador. A equipe usou uma floresta aleatória (um modelo de aprendizado de máquina que junta centenas de árvores de decisão e faz as árvores votarem) e pediu ao modelo uma única tarefa: olhar as medidas de um ronco e adivinhar o destinatário.

O teste seguiu quatro passos:

1. O modelo treinou com uma parte das chamadas, sabendo de quem e para quem era cada uma.

2. A equipe escondeu o resto das chamadas e pediu ao modelo o destinatário de cada uma.

3. Os mesmos dados foram embaralhados ao acaso, com os destinatários trocados, para medir quanto um chute acertaria.

4. A taxa real, 27,5%, foi comparada com a taxa do embaralhamento, pouco acima de 8%.

O controle mais importante veio depois. Um mesmo elefante pode simplesmente falar diferente com cada parente, como alguém muda o tom com a mãe e com o chefe. Se fosse só esse efeito, o rótulo não se repetiria entre chamadores diferentes.

Ele se repetiu. Roncos de fêmeas diferentes dirigidos ao mesmo elefante saíram parecidos entre si num grau que o acaso não explica. O rótulo pertence ao destinatário, e quem chama parece usar a mesma etiqueta para a mesma pessoa.

Fêmeas diferentes usavam um som parecido para chamar o mesmo elefante, e esse som não imitava a voz do chamado.

O rótulo também não aparecia em toda chamada com a mesma força. Ele ficou mais fácil de detectar nos roncos de contato, soltos quando o destinatário estava longe, e nos roncos de cuidado, que as fêmeas adultas dirigem aos filhotes.

Nos roncos de saudação, trocados quando dois elefantes já estão frente a frente, o modelo acertava menos. Faz sentido para quem fala: perto, não é preciso dizer o nome de quem já está olhando para você.

 
 

II  Por que Importa

Uma palavra sem imitação

Até 2024, só golfinhos e papagaios tinham registro firme de nomes entre animais selvagens. Golfinhos-nariz-de-garrafa usam um assobio de assinatura, criado por cada animal, e os outros o chamam copiando esse assobio. Papagaios-de-asa-verde, segundo trabalhos de Karl Berg na Venezuela, recebem dos pais um chamado próprio ainda no ninho.

Nos dois casos, o mecanismo é a imitação. Para chamar o golfinho Pedro, outro golfinho reproduz o assobio de Pedro. O nome é uma cópia do som do dono.

O resultado de Pardo indica outro caminho. O rótulo dos elefantes não se parece com o ronco do destinatário. É um som combinado, sem ligação com a voz de quem é chamado, e os linguistas chamam essa propriedade de arbitrariedade (a ausência de relação natural entre o som da palavra e aquilo que ela nomeia).

Quase todas as palavras humanas são arbitrárias. Nada em “mesa” lembra uma mesa. Essa liberdade é uma das razões pelas quais a língua consegue nomear qualquer objeto, inclusive os que não fazem som nenhum.

Achar um nome arbitrário fora da espécie humana empurra para trás a origem de uma das bases da linguagem, ou mostra uma origem paralela.

O dado conversa com a história evolutiva. Elefantes e humanos não têm parente próximo em comum: a linhagem dos elefantes se separou da dos primatas há dezenas de milhões de anos. Se os dois chegaram a nomes, chegaram por caminhos próprios.

A pressão parecida ajuda a explicar a coincidência. Os dois vivem muito, criam filhotes por anos e mantêm laços com dezenas de indivíduos que somem e reaparecem. Um animal com vida social assim ganha muito por conseguir chamar um parente específico no meio do grupo.

Há ainda um custo cognitivo. Para usar um nome arbitrário, o elefante precisa aprender o som de cada parente, guardar a associação e reproduzi-la com a laringe. O aprendizado vocal (a capacidade de aprender sons novos por imitação ou treino) já era conhecido nos elefantes por casos raros.

Em 2005, Joyce Poole e colegas descreveram na Nature uma fêmea órfã do Quênia, Mlaika, que imitava o barulho de caminhões numa estrada próxima. Um elefante macho num zoológico da Suíça imitava o chilrear de elefantes-asiáticos com quem dividia o recinto.

O estudo dos nomes dá a esse aprendizado uma função diária. Imitar caminhão é curiosidade; aprender o nome de cada tia, irmã e filhote é ferramenta de sobrevivência para um grupo que se espalha por quilômetros de capim.

 

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III  A Fonte

O artigo de 10 de junho

O trabalho saiu em 10 de junho de 2024 com o título African elephants address one another with individually specific name-like calls (elefantes-africanos se chamam uns aos outros com chamadas individuais parecidas com nomes).

Michael Pardo assina como primeiro autor. O último autor é George Wittemyer, ecólogo da Universidade Estadual do Colorado e presidente do conselho científico da Save the Elephants. Joyce Poole, cofundadora da organização ElephantVoices, entra entre os coautores, ao lado de pesquisadores do Quênia.

A amostra é pequena para uma questão tão grande. Os 469 roncos vieram de 101 elefantes diferentes chamando e 117 destinatários, segundo o próprio artigo, e cada par de chamador e destinatário contribuiu com poucas gravações.

Os experimentos com caixa de som envolveram 17 elefantes, também segundo o artigo. Cada um ouviu a chamada com o próprio rótulo e a chamada de controle, em dias diferentes, para evitar que a primeira gravação contaminasse a reação à segunda.

O acerto de 27,5% significa que, na maior parte das chamadas, o modelo errou o destinatário. A equipe trata o número como prova de que o rótulo existe, sem afirmar que todo ronco traz um nome ou que o modelo entende a chamada.

O ponto mais aberto continua aberto: ninguém sabe ainda qual parte do ronco carrega o nome. O modelo detecta um padrão nas medidas, mas não aponta o trecho exato, porque o rótulo pode estar espalhado por várias características do som ao mesmo tempo.

Também não se sabe como um filhote aprende os nomes, nem se um elefante usa o nome de um terceiro para falar dele quando o terceiro está ausente. Responder exige mais gravações, de mais famílias, e experimentos com sons alterados artificialmente.

Até lá, a conclusão publicada é estreita e firme: em duas populações do Quênia, roncos dirigidos a um elefante carregam algo próprio daquele elefante, e o elefante reconhece o som quando ouve.

A pergunta da edição fica para você: se um animal pode ter nome dado pelos outros, quantos dos bichos ao seu redor já não teriam o seu?

469 roncos. Foi a amostra de Amboseli e Samburu em que Michael Pardo achou o nome dos elefantes (Nature Ecology and Evolution, 2024).

 
 
 

Quiz da edição

No estudo de Michael Pardo publicado em 2024 na Nature Ecology and Evolution, qual foi a taxa de acerto do programa de computador ao identificar o destinatário de um ronco de elefante, comparada com o que o acaso explicaria?

A8% contra 27,5% esperados por acaso
B50% contra 12% esperados por acaso
C27,5% contra pouco mais de 8% esperados por acaso
D90% contra 45% esperados por acaso

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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