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A explicação começa num grupo minúsculo de neurônios logo acima do cruzamento dos nervos ópticos. Os fisiologistas chamam essa região de núcleo supraquiasmático (cerca de 20 mil células na base do cérebro, ligadas direto aos olhos).
Esse núcleo funciona como um marca-passo. Suas células ligam e desligam genes em ciclos, e cada volta completa leva perto de um dia. O ciclo ganhou o nome de ritmo circadiano, do latim circa diem, por volta de um dia.
A chave fica no por volta. Medido em gente isolada de qualquer pista externa, o ciclo humano dura um pouco mais de 24 horas. Na média, fica perto de 24 horas e 10 minutos, com variação de pessoa para pessoa.
No mundo comum, ninguém percebe a sobra porque a luz corrige o relógio todo dia. O mecanismo segue cinco passos:
1. A luz da manhã entra pelos olhos e atinge células especiais da retina, sensíveis ao azul.
2. Essas células mandam um sinal direto para o núcleo supraquiasmático.
3. O núcleo adianta o próprio ciclo e zera a diferença acumulada.
4. Ele avisa o resto do corpo, inclusive a glândula pineal, que segura a melatonina durante o dia.
5. À noite, sem luz, a melatonina sobe e o sono chega no horário de sempre.
Na caverna de Scarasson, o passo 1 nunca acontecia. A lanterna de Siffre era fraca demais para servir de sinal de manhã, e ele a acendia quando queria. Sem a correção diária, o relógio interno passou a correr livre.
Sem a luz do sol, o corpo de Siffre não perdeu o ritmo: perdeu só o ajuste, e cada dia dele ficou um pouco mais longo. |
As anotações da superfície mostraram o efeito. O ciclo de sono e vigília dele se estabilizou perto de 24 horas e meia. A cada volta, ele acordava cerca de meia hora mais tarde em relação ao relógio real.
Meia hora parece pouco. Somada ao longo de dois meses, a diferença vira dias. Some a ela as noites em que ele dormiu mais longo do que achava, e a conta de Siffre ficou 25 dias atrás do calendário.
A contagem até 120 aponta para outra peça. O cérebro tem um segundo sistema para medir intervalos curtos, de segundos a minutos, ligado à atenção e ao estado do corpo. No frio e no isolamento, esse cronômetro desacelerou, e cada segundo contado por ele valia mais de dois segundos reais.
Nenhum dos dois sistemas parou. Os dois continuaram medindo, com regularidade. O problema era a falta de um ponto de referência de fora.
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