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Para o som voltar, três coisas precisam funcionar juntas: o canal livre, a cadeia de ossículos transmitindo nos dois sentidos e as células ciliadas externas amplificando. Se a emissão sai, o caminho inteiro até a cóclea está de pé.
O detalhe que transformou a medida em exame é que nada depende do paciente. Não existe botão para apertar quando escutar. O aparelho pergunta à cóclea e a cóclea responde, mesmo em quem não fala, não entende a instrução ou está dormindo.
O recém-nascido é exatamente esse caso. A sonda de silicone entra no canal do bebê adormecido, dispara séries de estalos, e o programa soma centenas de repetições para arrancar a resposta do fundo. Entre dois e cinco minutos por orelha, e a tela mostra passou ou repetir.
De um a três bebês em cada mil nascem com perda auditiva permanente, e entre os que passaram pela UTI a taxa é várias vezes maior.
Antes da triagem universal, a suspeita nascia dos pais, quando a criança não reagia a nada e não começava a falar. A idade média de diagnóstico ficava entre dois e três anos, no fim da janela em que o cérebro monta linguagem com facilidade.
Em 1998, Christine Yoshinaga-Itano comparou crianças com o mesmo grau de perda, separadas apenas pela data da identificação. As atendidas até os seis meses de vida chegaram a escores de linguagem próximos do esperado para a idade. As identificadas depois ficaram atrás, e a diferença não fechava.
No Brasil, a Lei 12.303, de 2010, tornou o exame de emissões otoacústicas evocadas obrigatório e gratuito em todo hospital e maternidade. O nome de balcão é teste da orelhinha.
O exame tem limite. A emissão prova a cóclea até a célula ciliada externa, e para por ali. Na neuropatia auditiva as células externas trabalham direito e o sinal se perde adiante, no nervo: a criança passa na emissão e falha no potencial evocado de tronco encefálico.
Bebê de UTI faz os dois exames por causa dessa brecha, e vérnix no canal nas primeiras horas produz alarme falso que o reteste desfaz.
Fora da maternidade, a mesma medida vira sensor de dano precoce. A célula ciliada externa é a primeira a cair sob som muito intenso e sob drogas ototóxicas, como a cisplatina da quimioterapia e os antibióticos aminoglicosídeos. A emissão encolhe antes de o audiograma se mexer, o que dá semanas de aviso para trocar dose ou protocolo.
Dose alta de salicilato, o princípio da aspirina, se prende à prestina e trava o motor. A emissão some, a audição perde alguns decibéis e tudo volta quando o remédio deixa o corpo.
O zumbido é a ponta mais mal contada da história. Uma minoria de casos, na casa de poucos por cento, é emissão espontânea forte o bastante para o próprio dono escutar. O resto nasce em outro ponto do sistema auditivo.
O que sobra é a reclassificação do órgão. O ouvido não espera o som chegar: gasta energia o tempo inteiro para levantar o que chega, e paga o preço de um amplificador quase no talo, que às vezes escapa e canta sozinho.
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