|
Em 2019, uma equipe liderada pelo geoquímico Satoshi Okada e pelo biólogo Chong Chen, da agência japonesa de ciências do mar JAMSTEC, publicou na PNAS como o caracol-de-pé-escamoso (Chrysomallon squamiferum) produz as próprias escamas. O caracol entrega só metade dos ingredientes.
A escama nasce como uma placa de proteína, mole e sem metal. Ela é atravessada por canais finíssimos, e o caracol bombeia por eles compostos ricos em enxofre, vindos de dentro do corpo.
O ferro chega do lado de fora. A água das fontes hidrotermais carrega ferro dissolvido, que se infiltra na escama pela superfície. No ponto em que o ferro de fora encontra o enxofre de dentro, os dois se combinam e formam grãos de sulfeto de ferro.
O caracol fornece o enxofre, a chaminé fornece o ferro, e a armadura se forma na fronteira entre os dois. |
A prova veio de uma comparação entre campos. No campo Solitaire, a água é pobre em ferro, e os caracóis de lá têm escamas brancas, sem a camada metálica. Mesma espécie, mesmo genoma, armadura diferente conforme a química da água.
Nos campos Kairei e Longqi, as escamas saem pretas. Parte dos grãos é de greigita (um sulfeto de ferro magnético, parente da magnetita), e por causa dela os exemplares de Kairei grudam num ímã comum.
A concha segue a mesma lógica, em três camadas descritas por Yao e colegas no estudo do MIT de 2010. Por fora, sulfeto de ferro. No meio, uma camada grossa de matéria orgânica, parecida com borracha. Por dentro, aragonita (a forma de carbonato de cálcio que reveste a maioria das conchas).
Resta saber de onde sai tanto enxofre. A resposta está na garganta do caracol. Ele tem uma glândula esofágica (um bolso no começo do tubo digestivo) gigante, lotada de bactérias simbiontes (micróbios que vivem dentro de outro organismo em troca de abrigo).
Essas bactérias usam o sulfeto de hidrogênio da água das fontes, o gás do cheiro de ovo podre, para fabricar açúcares. O caracol se alimenta do que elas produzem e quase não precisa comer.
Sustentar essa colônia exige oxigênio e sangue. Em 2015, Chen e colegas reconstruíram o corpo do animal em 3D, a partir de cortes finos, e publicaram na Frontiers in Zoology: o coração ocupa cerca de 4% do volume do corpo, proporção enorme para um caracol.
Okada e Chen propõem uma leitura para a armadura: o enxofre que vira escama seria sobra da química das bactérias, despejada para fora do corpo antes de intoxicar o animal. A proteção viria de brinde, e a hipótese ainda espera teste direto.
|