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O cavalo Hans acertava 89% só quando alguém sabia a conta

Oskar Pfungst mostrou em 1904 que o cavalo de Berlim parava de bater o casco ao ler o corpo de quem fazia a pergunta.

Cavalo trotador escuro diante de uma lousa num pátio de Berlim em 1904

Hans diante da lousa em Berlim, 1904

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Em 1904, o psicólogo Oskar Pfungst, da Universidade de Berlim, testou o cavalo Hans em duas condições. Quando quem perguntava sabia a resposta, Hans acertou 89% das contas. Quando ninguém na sala sabia, acertou 6%.

Hans era um trotador russo da raça Orlov. O dono, Wilhelm von Osten, professor de matemática aposentado, morava em Berlim e exibia o cavalo num pátio no norte da cidade, sem cobrar ingresso.

O animal respondia batendo o casco dianteiro direito no chão. Somava, subtraía, dividia, dizia as horas, reconhecia cartas de baralho e soletrava palavras por um código em que cada letra correspondia a uma quantidade de batidas.

Von Osten acreditava sinceramente que tinha ensinado Hans a pensar. Dava aulas diante de uma lousa, como faria com um aluno, e nunca ganhou dinheiro com as exibições. Para ele, Hans era a prova de que um animal aprendia aritmética com método e paciência, igual a uma criança na escola primária.

Em 1904, o caso tomou os jornais alemães. O New York Times publicou em setembro daquele ano uma reportagem sobre o “cavalo maravilhoso de Berlim”, e a fama passou o Atlântico.

O Conselho de Educação da Prússia montou uma comissão de treze pessoas para examinar o animal. Entravam um veterinário, um diretor de circo, oficiais de cavalaria, professores e o diretor do zoológico de Berlim, sob a liderança do psicólogo Carl Stumpf.

Em setembro de 1904, a comissão concluiu que não havia fraude. Von Osten não mandava sinais de propósito, e Hans acertava com outras pessoas perguntando, até com o dono fora da sala.

Faltava explicar como. Stumpf entregou a tarefa ao aluno Pfungst, que trocou a plateia por um método: mudar uma condição por vez e anotar cada batida. A primeira seção mostra o que ele encontrou na cabeça de quem perguntava.

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I  O Mecanismo

O aceno que dava a resposta

Oskar Pfungst começou separando duas hipóteses: Hans sabia a resposta, ou alguém perto dele sabia? Para isolar a segunda, montou rodadas em que duas pessoas sussurravam cada uma um número no ouvido do cavalo, e Hans tinha de bater a soma.

Nenhum dos dois questionadores conhecia o número do outro. A soma, portanto, não existia na cabeça de ninguém na sala. Nessas rodadas, Hans errava quase sempre.

Bastava um único humano diante dele saber o resultado para os acertos voltarem. O cavalo não precisava ouvir a pergunta inteira; precisava de alguém que soubesse a resposta e estivesse à vista.

O segundo teste foi visual. Pfungst colocou antolhos (abas de couro presas ao cabresto que tapam a visão lateral do cavalo) em Hans e se posicionou de lado, fora do campo de visão dele.

Hans se esforçava para virar a cabeça e enxergar o questionador. Quando conseguia, acertava. Quando os antolhos o impediam, as respostas desandavam.

Hans não fazia a conta: ele lia o rosto de quem já tinha feito.

Então Pfungst parou de olhar para o cavalo e passou a observar as pessoas. Achou o sinal. Ao terminar a pergunta, o questionador inclinava de leve a cabeça e o tronco para frente, para enxergar o casco. Hans começava a bater.

Quando a contagem chegava ao número certo, o questionador relaxava e erguia a cabeça um pouco, num gesto mínimo de alívio. Hans parava ali.

Ninguém fazia de propósito. Von Osten não percebia o próprio gesto, nem os membros da comissão, que também arrancavam respostas certas do cavalo sem saber como.

Pfungst levou o achado para o laboratório da universidade e inverteu os papéis. Ele fazia de cavalo, batendo a mão direita, enquanto voluntários pensavam num número. Lendo a mesma inclinação e o mesmo alívio, acertava a maior parte, e quase nenhum voluntário percebia o sinal que dava.

O teste final foi controlar Hans de propósito. Inclinando a cabeça, Pfungst fazia o cavalo começar a bater; erguendo a cabeça, fazia o cavalo parar, no número que quisesse, certo ou errado. Hans obedecia ao gesto e ignorava a pergunta, prova de que a conta nunca tinha passado pela cabeça dele.

O treino de von Osten tinha um prêmio: pão e cenoura a cada acerto. Em anos de aula, Hans aprendeu a observar movimentos que nenhum humano da sala enxergava, e a observação rendia comida. A inteligência do cavalo existia, só que voltada para pessoas, não para números.

A pergunta seguinte era se a falha estava no cavalo ou em quem mede qualquer ser vivo.

 
 

II  Por que Importa

Ratos, cães e máquinas que leem a plateia

A resposta veio meio século depois, e apontou para quem mede. O caso de Hans virou verbete: efeito Clever Hans (efeito do Esperto Hans, na tradução) é quando o experimentador passa sinais sem querer a quem está sendo testado.

Em 1963, o psicólogo Robert Rosenthal e o colega Kermit Fode, da Universidade de Dakota do Norte, publicaram na Behavioral Science um teste com ratos de laboratório. Disseram a estudantes que metade dos ratos era “esperta” para labirintos e metade era “lenta”.

Os ratos eram iguais, sorteados do mesmo lote. Mesmo assim, os rotulados como espertos tiveram desempenho melhor no labirinto. Os estudantes, sem notar, manejavam e anotavam cada grupo de um jeito diferente.

Rosenthal citou Hans de forma direta e passou décadas medindo o efeito da expectativa em escolas, clínicas e laboratórios. O cavalo de Berlim virou capítulo de manual de psicologia experimental.

Quem sabe a resposta vaza a resposta, e o corpo vaza sem pedir licença.

Os cães farejadores repetem o caso de Hans. Em 2011, a pesquisadora Lisa Lit, da Universidade da Califórnia em Davis, publicou na Animal Cognition um teste com dezoito equipes de cão e condutor da polícia.

Os condutores ouviram que algumas salas tinham drogas ou explosivos, indicados por um papel vermelho na parede. Nenhuma sala tinha nada. As equipes deram 225 alertas, e os alertas se concentraram onde o papel vermelho estava.

O cão não inventava sozinho. Ele lia o condutor, que acreditava no papel. Na prática policial, um alerta falso pode justificar uma revista, e o estudo de Lit reabriu o debate sobre treino cego para as equipes.

A medicina incorporou a mesma lição no ensaio duplo-cego (teste em que nem o paciente nem quem aplica o remédio sabe quem recebeu o remédio e quem recebeu o placebo). Quem aplica sem saber não tem o que vazar.

As máquinas também caem no truque. Em 2019, Sebastian Lapuschkin e colegas, do Instituto Fraunhofer Heinrich Hertz e da Universidade Técnica de Berlim, publicaram na Nature Communications a análise de um programa que reconhecia fotos de cavalos.

O programa acertava bem, mas pelo motivo errado. Muitas fotos de cavalo do banco de treino tinham uma marca de direitos autorais no canto, e o programa aprendeu a procurar a marca, não o animal. Os autores batizaram o defeito de preditor Clever Hans.

Pesquisadores de cognição animal hoje trabalham com o experimentador escondido atrás de uma tela, ou sem saber a resposta certa, justamente para que nenhum gesto chegue ao bicho testado. Em pesquisas com cães, papagaios e chimpanzés, o resultado só vale quando quem conduz o teste não tem como ajudar.

 

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III  A Fonte

Pfungst, Der Kluge Hans, 1907

O relatório completo saiu em 1907, em Leipzig, pela editora Johann Ambrosius Barth, com o título “Das Pferd des Herrn von Osten (Der Kluge Hans)” (O cavalo do senhor von Osten, o Esperto Hans). Carl Stumpf assinou a introdução.

A tradução para o inglês saiu em 1911 em Nova York, pela Henry Holt, feita pelo psicólogo Carl Rahn. É a edição que espalhou o caso pelas universidades americanas e que segue citada até hoje.

O livro traz as tabelas de cada rodada: a condição testada, quem perguntava, se o questionador sabia a resposta e quantas batidas Hans deu. As porcentagens de acerto saem dessas tabelas, rodada por rodada.

Pfungst descreve também os testes com antolhos, o experimento em que ele mesmo fez o papel do cavalo e as medições dos movimentos de cabeça dos questionadores, alguns tão pequenos que só apareciam com observação atenta e repetida.

Von Osten não aceitou o resultado. Acusou Pfungst de ter estragado o cavalo e continuou exibindo Hans como um animal que pensava. Ele morreu em 1909, ainda convencido.

Hans passou para Karl Krall, um joalheiro de Elberfeld, que montou um estábulo de cavalos “pensantes”, entre eles Muhamed e Zarif, e escreveu livros defendendo que os animais calculavam sozinhos.

O destino de Hans não tem registro. A versão mais repetida diz que ele foi convocado como cavalo do exército alemão em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, e não voltou. Nenhum documento confirma o que aconteceu com ele depois, porque os registros de cavalos requisitados se perderam com a guerra.

O que o livro deixou é um procedimento: separar quem pergunta de quem sabe a resposta. Toda pesquisa com animal, paciente ou programa que passa por esse filtro deve uma parte do desenho ao pátio de von Osten.

“Quantas respostas certas você dá só porque alguém na sala já sabe qual é?”

6% de acertos. Foi o resultado de Hans quando ninguém na sala sabia a resposta (Oskar Pfungst, Der Kluge Hans, 1907).

 
 

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