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O concreto que a engenharia usa hoje trabalha com uma pasta chamada C-S-H, silicato de cálcio hidratado, que se forma nas primeiras semanas depois da mistura. Ela cola os grãos de areia e brita, atinge a resistência de projeto e, a partir dali, só perde qualidade.
Essa pasta é quimicamente estável, e a estabilidade é justamente o problema em ambiente agressivo. Quando uma fissura abre, nada dentro do material se mobiliza para preenchê-la, e o caminho fica aberto para cloreto, sulfato e água chegarem ao aço da armadura.
A argamassa romana partia de outro par de ingredientes. Cal, obtida pela queima de calcário, e pozolana, a cinza vulcânica dos depósitos de Pozzuoli e da região de Nápoles, rica em vidro que reage com cal em presença de água em vez de simplesmente endurecer.
A obra marítima seguia um procedimento descrito por Vitrúvio no primeiro século antes da era comum. A cal e a pozolana eram misturadas em terra, o material era despejado numa fôrma de madeira montada no local e recebia blocos de rocha vulcânica, o agregado grosso, ainda com água do mar entrando na mistura.
O que vem depois é a parte estranha. A água salgada não fica inerte dentro do poro: ela continua dissolvendo o vidro vulcânico ao longo de séculos e liberando alumínio, silício e cálcio numa solução alcalina confinada, o ambiente exato onde certos minerais crescem.
Dessa solução saem duas famílias de cristal. A tobermorita aluminosa, em placas finas e alongadas, e a phillipsita, uma zeólita que aparece nas cavidades e nas bordas dos fragmentos de rocha, ambas identificadas por difração de raios X nas amostras antigas.
A tobermorita é o nome que interessa. Ela é rara na natureza, forma-se normalmente em ambiente hidrotermal a temperatura alta, e sintetizá-la em laboratório exige condições que uma obra em canteiro não tem. Nos testemunhos romanos ela aparece formada a frio, dentro do próprio material, ao longo do tempo.
A geometria explica o ganho mecânico. Placas cristalinas que crescem atravessando uma microfissura funcionam como fibras de reforço em escala mineral: a trinca precisa contornar ou romper cada placa para avançar, o que aumenta a energia necessária para propagar a falha.
Os números levantados nas amostras desenham o quadro:
| Idade dos testemunhos analisados: | cerca de 2 mil anos de exposição contínua | | Largura típica das placas de tobermorita: | da ordem de poucos micrômetros | | Temperatura de formação no material romano: | ambiente, contra dezenas de graus acima em síntese usual | | Vida útil de projeto de concreto marinho moderno: | em geral 50 anos | | Temperatura do forno de cimento Portland: | cerca de 1450 graus |
A relação de alumínio e silício dessa tobermorita também é incomum, com alumínio substituindo silício na estrutura em proporção alta, o que a torna mais deformável do que a variedade ideal e ajuda a explicar por que o material acomoda esforço sem estilhaçar.
O conjunto forma um mecanismo de manutenção interna. Onde a fissura abre, a água entra; onde a água entra, ela ataca o vidro vulcânico; onde o vidro se dissolve, o cristal cresce e ocupa o vão. O dano cria a condição do próprio reparo.
Nenhuma dessas etapas foi projetada. Os construtores da época sabiam por experiência que a pozolana dos campos vulcânicos dava argamassa que pegava debaixo d'água, e escolheram o material por desempenho observado, sem acesso à química que hoje descreve o processo.
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