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O frâncio tem 87 prótons no núcleo. Com tanta carga positiva espremida num espaço minúsculo, a repulsão elétrica entre eles quase vence a força nuclear forte, a cola de curto alcance que segura prótons e nêutrons juntos.
Nenhum isótopo do frâncio é estável. Há mais de 30 conhecidos, e o de vida mais longa, o frâncio-223, tem meia-vida de 22 minutos (o tempo para metade dos átomos de uma amostra se transformar em outro elemento). Os outros duram segundos, milésimos de segundo ou menos.
O frâncio-223 decai por emissão beta: um nêutron do núcleo vira próton e expulsa um elétron em alta velocidade. O núcleo passa a ter 88 prótons e vira rádio-223. O elemento some sem deixar frâncio para trás.
De onde vem o pouco frâncio da Terra
O frâncio natural nasce dentro de minérios de urânio, no fim de uma cadeia longa de decaimentos. O caminho segue quatro passos:
1. O urânio-235, presente em toda rocha com urânio, decai ao longo de centenas de milhões de anos até chegar ao actínio-227.
2. O actínio-227, com meia-vida de cerca de 22 anos, quase sempre emite beta e vira tório-227.
3. Em pouco mais de 1% dos casos, ele emite uma partícula alfa e vira frâncio-223.
4. O frâncio-223 vira rádio-223 em minutos, e a cadeia segue até terminar no chumbo.
A conta da crosta sai daí. Existe uma produção contínua e minúscula, a partir do urânio espalhado pelas rochas, e um consumo rápido, pelo decaimento. As duas se equilibram num estoque fixo e muito pequeno.
Cada átomo de frâncio na crosta de hoje é novo: os que existiam há uma hora já viraram rádio. |
Esse estoque fica abaixo de 30 gramas para o planeta inteiro, segundo as estimativas reunidas pela Royal Society of Chemistry. Só o astato, o elemento 85, aparece em quantidade menor entre os que ocorrem na natureza.
A química do frâncio nunca foi vista em escala de laboratório comum. Ninguém jamais juntou frâncio suficiente para ver o metal a olho nu. Uma amostra visível produziria tanto calor pelo próprio decaimento que se vaporizaria antes de qualquer medição.
O que se sabe da química dele vem de traços, poucos milhares de átomos misturados a outros sais. Perey usou o método da coprecipitação: o frâncio dissolvido acompanhava o césio quando um sal de césio se separava da solução, como faria um membro da mesma família.
Foi a prova química de que o sinal vinha do elemento 87. O frâncio se comportava como metal alcalino, igual ao sódio, ao potássio e ao césio, com um único elétron na camada mais externa.
Na tabela de Mendeleev, a posição bastava para prever o comportamento. Faltava alguém ver o átomo. Perey viu, sem nunca ter tido nas mãos um grão sequer do elemento que tinha descoberto.
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