In partnership with

Ciência Bizarra   Ciência Bizarra
ED 152
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

Você escolhe a edição de amanhã: a votação está no fim desta edição.

O lago de pH 10 guarda 2,5 milhões de flamingos

O lago Natron queima a pele da maioria dos animais, e a química de um vulcão vizinho faz dele o berçário do flamingo-pequeno.

Flamingos-pequenos sobre a crosta de sal vermelha do lago Natron

Flamingos na crosta de sal do Natron

▼

Em 1954, o ornitólogo britânico Leslie Brown sobrevoou o lago Natron, no norte da Tanzânia, num avião pequeno e viu, no meio da crosta de sal, milhares de montinhos de lama com um ovo em cima de cada um. Tinha achado o berçário do flamingo-pequeno, procurado havia décadas pelos naturalistas da África Oriental.

Os ninhos estavam no lugar mais hostil da região. A BirdLife International, que defende o lago desde 2006, registra água a até 60 graus nas poças rasas e pH acima de 10 (a escala de acidez vai de 0 a 14, e a água pura fica no 7).

Água assim arranca a gordura da pele e irrita olho e mucosa. A lama da margem gruda nas patas e, ao secar, endurece feito reboco. Leão, hiena e chacal rondam as bordas e quase nunca entram.

Mesmo assim, os flamingos-pequenos voltam a cada estação de chuvas. Chegam dos lagos do Quênia, da Etiópia e do norte da Tanzânia em bandos que tingem a margem de rosa, e ficam meses sobre a crosta.

A cena tem cor de planeta errado. Na seca, a água rasa fica vermelho-sangue, cortada por placas brancas de sal. No meio delas, as aves se apertam em ilhas de barro, cada uma do tamanho de uma quadra de futebol, chocando ovo ao lado de ovo.

O paradoxo tem duas metades. A primeira é química: a água corrosiva nasce de um vulcão vizinho, o único do planeta em atividade a soltar lava de carbonato em vez de lava de rocha comum. A segunda é estratégia: o ambiente hostil a quase todo bicho funciona como a muralha que guarda os ovos.

Entender a segunda exige entender a primeira. A química começa na encosta do vulcão, ao sul do lago, e desce com a chuva.

Continue lendo ↓

 

Quem banca a edição de hoje

Which GTM Work Should Agents Own?

Automating at random isn’t a system. Deciding what agents own and what people own is.

On October 28, HubSpot and Dust run Build, Buy, or Hire? live. You’ll leave knowing what to hand to agents, and with the workflows to prove it:

A framework for where a human stays in the loop
A post-call automation that updates your CRM for you
A Slack view of who owns each account and what happens next

Live at 11am EDT / 8am PDT

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

I  O Mecanismo

A lava preta que vira sal branco

A resposta de ontem

Qual dinossauro Myhrvold e Currie puseram a estalar a cauda?

Foi o Apatosaurus louisae, um saurópode de pescoço e cauda longos. No artigo da revista Paleobiology de 1997, Myhrvold e Currie calcularam pelo computador uma ponta de cauda supersônica. Em 2022, um grupo liderado por Simone Conti, na Scientific Reports, refez a simulação e concluiu a cauda rápida sem romper o som.

O vulcão se chama Ol Doinyo Lengai, “montanha de Deus” na língua dos massais, povo pastor da região. Ele fica a poucos quilômetros ao sul do Natron e solta natrocarbonatito (lava feita de carbonato de sódio e de potássio, com quase nada da sílica das lavas comuns).

Em 1988, os vulcanólogos Jörg Keller, da Universidade de Freiburg, e Maurice Krafft, do Centro de Vulcanologia Vulcain, mediram a lava escorrendo a pouco mais de 500 graus. A lava de basalto do Havaí sai do chão perto de 1.150 graus.

A lava fria e pobre em sílica corre mole, quase como óleo de motor. Ela brota preta e brilhante. Em contato com a umidade do ar, o carbonato reage e, em poucas horas, a rocha fica branca, como se tivesse nevado no topo de um vulcão equatorial.

Esse pó branco é solúvel. A cinza das erupções e a lava esfarelada caem na encosta, e a chuva as dissolve e carrega encosta abaixo, rumo à depressão onde fica o lago.

O Natron é uma bacia endorreica (sem saída para o mar nem para outro rio). A água entra pelo rio Ewaso Ng'iro, que desce do Quênia, e por fontes termais do fundo do Vale do Rift, a rachadura que corta o leste da África. Sair, só pelo vapor.

O sol do Rift evapora a água e deixa o carbonato para trás. A cada estação seca, a concentração sobe, e o pH sobe junto. O sal que sobra é o natron, carbonato de sódio hidratado (preso a moléculas de água no cristal).

A água do Natron fere pela soda: o mesmo carbonato da lava, dissolvido e concentrado pelo sol.

O caminho até a água corrosiva segue quatro etapas:

1. O Ol Doinyo Lengai solta lava e cinza ricas em carbonato de sódio.

2. A chuva dissolve o carbonato e o leva pela encosta até a bacia.

3. As fontes termais somam mais sal e mais calor vindos do fundo do Rift.

4. Na seca, o sol evapora a água, a soda se concentra e forma crosta.

O vermelho vem de micróbios. Haloarqueias (micróbios que só prosperam em água muito salgada) e cianobactérias (bactérias que fazem fotossíntese) cobrem as poças, carregadas de pigmentos laranja e vermelhos que funcionam como protetor contra o sol forte.

Entre elas, cresce em massa a Arthrospira fusiformis, a cianobactéria vendida em pó como espirulina. É o prato principal do flamingo-pequeno, e é dela que a ave tira o carotenoide (pigmento alaranjado) que deixa as penas rosadas.

 
 

II  Por que Importa

Uma muralha de sal em volta dos ovos

O flamingo-pequeno, Phoeniconaias minor no nome científico, é o mais numeroso dos seis flamingos do planeta e o menor deles, com cerca de 90 centímetros de altura. Na África Oriental, ele vive de lago alcalino em lago alcalino, filtrando algas com o bico virado de cabeça para baixo.

Ele come em vários lagos, mas cria filhote de forma regular só no Natron. Bogoria, Nakuru e Magadi, no Quênia, recebem bandos enormes e quase nunca viram berçário. A BirdLife International aponta o Natron como o sítio onde nasce a grande maioria dos flamingos-pequenos da África Oriental.

A razão é o que o lago afasta. Depois das chuvas, a crosta racha e deixa ilhas de lama cercadas de água cáustica. Um predador que tentasse chegar até elas atolaria as patas numa salmoura quente, alcalina e funda o bastante para ferir a pele.

As aves aguentam porque a pele das pernas é grossa e escamosa, coberta de queratina como unha. Elas bebem nas fontes de água doce das margens e lavam o sal do corpo ali. Os ovos ficam no alto de montes de barro, longe do contato direto com a água.

Cada casal bota um ovo só, e os dois pais revezam o choco por cerca de quatro semanas. Quando o filhote sai da casca, tem penugem cinza e bico reto. O bico curvo de filtro só se forma meses depois, e até lá ele vive do leite de papo dos pais (uma secreção rica em gordura feita na garganta).

Com poucas semanas, os filhotes se juntam em creches (bandos de milhares de jovens vigiados por poucos adultos). As creches caminham quilômetros pela crosta rumo à água menos salgada, num dos maiores deslocamentos de filhotes a pé do mundo das aves.

A caminhada tem custo. Em anos de pouca água, a soda gruda e cristaliza nas pernas dos filhotes, formando anéis duros que crescem a cada passo. Em 1962, num lago vizinho do Quênia, essas tornozeleiras de sal pararam uma colônia inteira e viraram caso de resgate.

O mesmo isolamento faz o berçário frágil. Em 2006, a Tata Chemicals, da Índia, e a Corporação Nacional de Desenvolvimento da Tanzânia propuseram uma fábrica para extrair carbonato de sódio do Natron. A campanha liderada pela BirdLife reuniu dezenas de organizações, e a Tata recuou em 2008.

O lago já tinha proteção no papel. Em 2001, a Convenção de Ramsar (o tratado internacional de 1971 que protege áreas úmidas) incluiu a bacia do Natron na sua lista de sítios de importância internacional. A ameaça seguinte veio de fora: represas planejadas no Ewaso Ng'iro, do lado queniano, poderiam reduzir a água que chega ao lago.

 

Quem banca a edição de hoje

Your Fall Glow-Up Comes in Two Cups

Pique’s Radiant Skin Duo pairs antioxidant-rich Sun Goddess Matcha with B·T Fountain, a beauty electrolyte for hydrated, plump-looking skin. In a trial of B·T Fountain’s ceramides, hydration improved 37% and elasticity 36% by day 60. Subscribe for 20% off for life, backed by a 90-day money-back guarantee.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  A Fonte

As pernas queimadas e as aves de pedra

Leslie Brown não se contentou com a vista do avião. Pousou perto da margem e saiu a pé rumo às colônias. A crosta cedeu, ele afundou na lama alcalina e a soda queimou a pele das pernas. Passou semanas em tratamento até voltar a andar normalmente.

Ele contou a travessia e a descoberta no livro The Mystery of the Flamingos (O Mistério dos Flamingos), de 1959. O livro descreve o Natron como o berçário perdido da espécie e virou referência para quem estuda flamingos no continente.

Antes de Brown, ninguém sabia onde nasciam os milhões de flamingos-pequenos da África Oriental.

Seis décadas depois, o lago voltou às manchetes por outra lente. Em 2013, o fotógrafo britânico Nick Brandt publicou o livro Across the Ravaged Land (Através da Terra Devastada) com retratos de aves e morcegos calcificados (cobertos e endurecidos pelos sais) achados na margem do Natron.

Brandt explicou em entrevistas da época que encontrou os corpos já endurecidos pela soda, espalhados na beira d'água, e os posicionou em galhos e pedras para fotografar. As imagens rodaram o mundo como prova de um lago que transforma bicho em estátua.

A química por trás repete a da mumificação. A palavra natron vem do egípcio antigo, passou pelo grego nitron e batizou o mineral que os sacerdotes do Egito usavam para secar corpos antes de enfaixar. No lago, o carbonato faz o mesmo trabalho sem ninguém.

Brandt também deixou registrado o limite da explicação. Ele contou não saber ao certo como as aves chegaram à água, e levantou a hipótese de a superfície espelhada do lago confundir o voo. Nenhum estudo de campo confirmou ou descartou a ideia, porque ninguém acompanhou a queda de uma dessas aves.

O lago tampouco é estéril. Nas entradas das fontes termais, onde a água é um pouco menos salgada, vivem tilápias do gênero Alcolapia, peixes pequenos adaptados à água alcalina e quente que não existem em nenhum outro lugar.

Para o flamingo, as contas fecham a favor do risco. A ave perde alguns adultos e filhotes para a soda, e em troca cria a colônia num lugar onde quase nenhum predador chega aos ovos.

2,5 milhões de flamingos-pequenos na África Oriental, quase todos nascidos num só lago corrosivo (BirdLife International, 2007).

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que lago do Quênia voluntários quebraram, em 1962, as tornozeleiras de soda de milhares de filhotes de flamingo?

 
 
Quiz da edição

Em 1988, que temperatura os vulcanólogos Jörg Keller e Maurice Krafft mediram na lava saindo do Ol Doinyo Lengai?

Apouco mais de 1.150 graus
Bcerca de 90 graus
Cpouco mais de 500 graus
Dacima de 60 graus

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🔬🔬🔬🔬🔬  ótima 🔬🔬🔬🔬  boa 🔬🔬🔬  ok 🔬🔬  ruim 🔬  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual edição você quer ver amanhã?

Voto aberto até 21/10, 23h

A Halicephalobus mephisto →
B Brinicle →
C Cueva de los Cristales →
D Hennig Brand →
 
Recomendação de Newsletter
Marcas Memoráveis

Marcas Memoráveis

O movimento que fez a marca ser lembrada, o bastidor do branding e o erro que saiu caro, em dois minutos. No seu email todo dia às 18:18.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →
 

Continue curioso. Mirabile dictu.

CIÊNCIA BIZARRA

Parece mentira. Mas é real e está provado

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter
📚 Leia o acervo completo