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Quase todo terremoto grande acontece na borda de uma placa tectônica, onde duas placas se chocam ou se raspam: Chile, Japão, Califórnia. New Madrid fica longe de qualquer borda, sobre a parte mais estável da América do Norte.
Os sismólogos chamam esse tipo de tremor de intraplaca (dentro da placa, longe das bordas). Ele é mais raro, e a crosta antiga e fria do leste americano carrega as ondas sísmicas muito mais longe do que a crosta quente e quebrada da costa oeste.
Por causa dessa crosta, os tremores de 1811 e 1812 chegaram a cidades distantes. Jornais de Charleston, na Carolina do Sul, e de Washington publicaram relatos de móveis balançando e de moradores acordados no escuro.
Um tremor longe da borda da placa sacode uma área muito maior do que um tremor igual na Califórnia. |
Quem estava perto viu o rio por dentro. Eliza Bryan, moradora de New Madrid, descreveu o choque de 7 de fevereiro numa carta de 1816 ao pregador Lorenzo Dow, que a publicou no diário dele.
Ela escreveu: “o Mississippi primeiro pareceu recuar das margens, e suas águas se juntaram como uma montanha, deixando por um momento muitos barcos em seco sobre a areia”.
No rio também viajava o New Orleans, o primeiro barco a vapor do oeste americano, de Nicholas Roosevelt, em viagem inaugural de Pittsburgh até Nova Orleans. A tripulação atravessou o trecho dos tremores e encontrou margens desabadas e ilhas sumidas do mapa que levava.
Dois séculos depois, o vale abriga Memphis, St. Louis, pontes sobre o Mississippi, oleodutos e gasodutos que cruzam o país. O Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, marca a zona de New Madrid como a área de maior perigo sísmico a leste das Montanhas Rochosas.
A pergunta prática é de frequência. Para respondê-la, a geóloga Martitia Tuttle e colegas cavaram trincheiras nos jorros de areia antigos e dataram o carvão e a cerâmica presos nas camadas.
O resultado saiu no Bulletin of the Seismological Society of America, em 2002: sequências de grandes tremores perto do ano 900 e perto do ano 1450, cada uma com jeito parecido com a de 1811 e 1812. No estudo de Tuttle, o intervalo médio fica em torno de 500 anos.
O estudo transformou montes de areia num calendário. Sem sismógrafo e sem cronista, as camadas do solo guardaram a data dos tremores que nenhum colono viu.
Esse calendário mudou a preparação da região. Desde 2011, escolas e empresas de vários estados do vale fazem o simulado anual Great Central US ShakeOut (Grande Tremor do Centro dos EUA), em que os participantes treinam se abaixar, se proteger e se segurar.
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