|
|
O navio de Shackleton continua intacto a 3.008 metros
O Endurance afundou em 1915 no mar de Weddell e foi achado com o casco preservado, porque a larva que devora madeira não sobrevive ali.
|
O casco de pinho parado a 3.008 metros
|
| ▼ |
|
Em 2013, Diva Amon e Adrian Glover, do Natural History Museum de Londres, publicaram o resultado de um experimento simples no Oceano Antártico: baixaram tábuas de pinho e ossos de baleia até o fundo, deixaram lá por catorze meses e recolheram tudo. Os ossos vieram tomados por vermes comedores de osso, três espécies novas para a ciência. As tábuas voltaram sem um único furo.
Em qualquer outro oceano do planeta, madeira largada no fundo por catorze meses volta parecendo uma esponja. Um pedaço de casco naufragado vira renda em poucos anos e pó em algumas décadas. A madeira submersa é um dos alimentos mais disputados do mar profundo, e existe uma fauna inteira especializada em achá-la, colonizá-la e comê-la de dentro para fora.
O experimento das tábuas mostrou que a Antártica é o buraco nesse mapa. E nove anos depois de as tábuas voltarem limpas, uma expedição encontrou a prova em escala de navio.
Em 5 de março de 2022, a expedição Endurance22, financiada pelo Falklands Maritime Heritage Trust, localizou com veículos submarinos o casco do Endurance a 3.008 metros de profundidade no mar de Weddell, a cerca de seis quilômetros da posição que o capitão Frank Worsley havia anotado no diário de bordo em 1915. O navio de Ernest Shackleton estava de pé no sedimento, com o leme no lugar, os mastros caídos sobre o convés e as letras douradas do nome ainda legíveis na popa, acima da estrela de cinco pontas.
Cento e sete anos embaixo d'água, e as tábuas continuam com a cara de tábua. Nenhum outro naufrágio de madeira dessa idade chegou perto desse estado de conservação em mar aberto.
A explicação não está no gelo que esmagou o navio, nem na pressão, nem na escuridão. Está na ausência de um animal de poucos centímetros com um nome que soa a personagem de ficção: Teredo navalis, o molusco que fez a Marinha Real inglesa forrar de cobre o fundo de suas fragatas.
Continue lendo ↓
|
|
I O Mecanismo
A larva que nunca chegou ao mar de Weddell
|
|
O Teredo navalis não é um verme, apesar do corpo mole e comprido que lhe rendeu o apelido de broca-do-mar. É um molusco bivalve, parente distante do mexilhão, com as duas conchas reduzidas a duas lâminas minúsculas na ponta da frente do corpo.
Essas duas conchas não protegem nada. Elas raspam. O animal gira as valvas contra a madeira num movimento alternado e escava um túnel do diâmetro de um lápis, forrando a parede com carbonato de cálcio conforme avança. A serragem produzida na escavação entra pela boca e vira comida, digerida com a ajuda de bactérias simbiontes alojadas nas brânquias, capazes de quebrar celulose e fixar nitrogênio.
Um casco atacado por milhares desses túneis conserva a superfície externa quase intacta, porque o molusco entra ainda larva por um furo microscópico e nunca mais sai. A tábua vira um favo por dentro enquanto por fora continua com aparência de madeira boa, até o dia em que cede sob o próprio peso.
A fase que define a geografia do bicho é a larval. O Teredo adulto está preso ao túnel para sempre; quem viaja é a larva, que passa semanas na coluna d'água como plâncton até encontrar madeira submersa onde se fixar. Sem madeira encontrada dentro dessa janela, a larva morre.
E aqui aparece a razão da fronteira antártica. A Antártica não tem árvores há cerca de 30 milhões de anos, desde que a formação da Corrente Circumpolar Antártica isolou o continente e o congelou. Nenhum rio despeja tronco no mar de Weddell, nenhuma floresta costeira derruba galho na maré, nenhuma vegetação lenhosa cresce a menos de mil quilômetros dali.
Sem madeira chegando ao mar, não existe recurso para sustentar uma população de perfuradores. E sem população residente, o suprimento de larvas depende de um transporte vindo de fora, que a Corrente Circumpolar Antártica interrompe: a barreira de água fria que gira em torno do continente há dezenas de milhões de anos funciona como um muro para larvas de águas temperadas.
O frio soma um segundo obstáculo. A água de fundo do mar de Weddell fica entre menos 0,8 e menos 0,5 grau, próxima do ponto de congelamento da água salgada. A essa temperatura, o metabolismo da larva desacelera, a janela de sobrevivência encolhe e a colonização deixa de ser viável mesmo quando algum indivíduo chega.
O terceiro fator é a química da própria decomposição. A madeira submersa também se degrada por fungos e bactérias, mas o processo depende de temperatura e de oxigênio disponível na interface. No fundo antártico, a temperatura baixa reduz a taxa de degradação microbiana, a ausência de perfuradores impede que o interior da tábua seja exposto ao ataque, e o resultado é uma madeira que envelhece em ritmo geológico.
Junte as três condições e o mar de Weddell vira um freezer sem inquilinos. O Endurance não foi preservado por acidente: ele afundou dentro da única grande região oceânica onde a madeira não tem quem a coma.
Os números do fenômeno:
| Profundidade do casco: | 3.008 metros | | Ano do naufrágio: | 1915 | | Ano da localização: | 2022 | | Tempo submerso: | 107 anos | | Temperatura da água de fundo: | cerca de 0,5 grau negativo | | Duração do experimento das tábuas: | 14 meses | | Perfuradores achados na madeira: | nenhum | | Distância da posição anotada em 1915: | cerca de 6 quilômetros |
|
|
II Por que Importa
Um arquivo de madeira guardado pelo frio
|
|
A ausência dos perfuradores muda o que é possível saber sobre o passado no Oceano Antártico. Em qualquer outro mar, um naufrágio de madeira do século 19 sobrevive como um monte de metal, cerâmica e vidro espalhado sobre uma mancha escura no sedimento, com a estrutura do navio reduzida a nada. A carga fica; o navio some.
No fundo antártico o navio fica. Fica o convés, a amurada, o cabo de aço enrolado no tambor, a bota deixada no camarote. As imagens do Endurance mostram uma vigia de vidro sem trinca e um sino ainda fixado no suporte, objetos que em águas quentes teriam desabado junto com a madeira que os sustentava décadas atrás.
O contraste vale como um teste natural de conservação. O mesmo naufrágio, com a mesma idade e o mesmo material, teria dois destinos completamente distintos dependendo apenas da presença de um molusco de poucos centímetros na região.
Existe uma consequência prática para a arqueologia subaquática. Em regiões onde os perfuradores atuam, salvar madeira histórica significa retirar a peça, tratá-la com polietilenoglicol durante anos e mantê-la num ambiente controlado, num custo que consome orçamento de museu por décadas. O casco sueco Vasa, resgatado em 1961, ainda recebe tratamento químico.
No mar de Weddell a escolha se inverte. O Endurance foi declarado Sítio e Monumento Histórico número 93 pelo Tratado da Antártica, e a expedição de 2022 não retirou um único objeto: filmou, escaneou e foi embora. O lugar mais seguro para aquele navio é exatamente onde ele está.
E a lição transborda a arqueologia. A degradação de matéria orgânica que costuma ser tratada como processo físico inevitável depende, no fundo do mar, de um agente biológico específico. Tire o agente da equação e o tempo passa sem cobrar quase nada.
O mesmo raciocínio se aplica ao carbono. Madeira que afunda em oceano temperado é rapidamente processada por perfuradores e microrganismos, e o carbono nela volta ao ciclo. Madeira que afunda em água antártica fica onde caiu por escalas de tempo muito maiores, o que faz das regiões polares um destino diferente para o material lenhoso que chega ao mar profundo.
Para quem lê de casa, o recado é mais direto. O que apodrece na sua vida não apodrece pelo tempo, apodrece por quem come. Retire o comedor e o relógio quase para de contar.
| |