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Nature, 1954, volume 173. Johan T. Ruud publicou Vertebrates without Erythrocytes and Blood Pigment, o artigo que estabeleceu formalmente que os peixes-gelo antárticos vivem sem hemoglobina e praticamente sem hemácias.
Ruud era fisiologista norueguês e trabalhou a partir de animais capturados no Oceano Antártico, medindo o conteúdo de oxigênio do sangue e comparando com o de peixes de sangue vermelho do mesmo ambiente. Os números encontrados ficaram abaixo de um por cento em volume.
O caminho até o artigo passou por relatos de baleeiros e por coletas anteriores. Ditlef Rustad, zoólogo da expedição norueguesa de 1927 a 1928, registrou o crocodilo branco de guelras claras e sangue incolor, observação que Ruud retomou décadas depois com instrumento de laboratório.
O que a publicação de 1954 fez foi transformar a curiosidade de bordo em medida. Antes dela havia a impressão de um peixe pálido; depois dela houve um valor de capacidade de oxigênio, comparável com qualquer outro vertebrado medido no mesmo padrão.
Journal of Experimental Biology e a literatura de fisiologia comparada dos anos seguintes descreveram o pacote de compensações: coração aumentado, volume sanguíneo elevado, débito cardíaco alto e vasos de grande calibre.
Proceedings of the National Academy of Sciences, 1995. Ross Hill, Bruce Sidell e colaboradores publicaram a análise genética que mostrou a ausência do gene da beta-globina e o estado truncado do gene da alfa-globina nos canictiídeos.
Journal of Experimental Biology, 2006. Bruce D. Sidell e Kristin M. O'Brien publicaram When bad things happen to good fish: the loss of hemoglobin and myoglobin expression in Antarctic icefishes, revisão que organizou o debate entre perda neutra e perda tolerada.
Aquele trabalho é o que sustenta a leitura hoje dominante: as compensações cardiovasculares custam energia e não devolvem vantagem líquida, o que aponta para uma perda tolerada pelo ambiente frio, não selecionada por ele.
Nature, 2019, volume 3 da série Ecology and Evolution. O consórcio que sequenciou o genoma do peixe-gelo Chaenocephalus aceratus detalhou a deleção do agrupamento de globinas e a expansão de genes ligados a proteínas anticongelantes.
Comparative Biochemistry and Physiology e trabalhos correlatos documentaram a perda adicional de mioglobina cardíaca em seis das dezesseis espécies, cada uma por mutação independente, o que indica eventos separados dentro da mesma família.
O ponto ainda em disputa é o balanço final de custo e benefício da perda. A queda de viscosidade do plasma no frio é real e medida, mas quanto ela compensa da capacidade perdida continua sem número fechado na literatura.
Também segue aberta a margem térmica exata de cada espécie. Os limites superiores medidos em laboratório variam conforme o protocolo de aquecimento, e a tradução desses limites para o mar real ainda está sendo trabalhada.
"Quantas coisas que você considera indispensáveis são apenas a solução que a sua espécie encontrou primeiro?"
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