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O relâmpago do Catatumbo acende 300 noites por ano

Na foz do rio Catatumbo, na Venezuela, o vento das montanhas e a água morna do lago montam a mesma tempestade quase toda noite.

Relâmpagos sobre um lago escuro à noite, com palafitas na margem

Tempestade noturna sobre o lago de Maracaibo

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Em 2016, a meteorologista Rachel Albrecht, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, publicou com colegas no Bulletin of the American Meteorological Society o mapa de 16 anos de relâmpagos vistos do espaço. O primeiro lugar do planeta ficou com o lago de Maracaibo, na Venezuela: 233 relâmpagos por quilômetro quadrado a cada ano.

O ponto exato fica no sudoeste do lago, onde o rio Catatumbo despeja a água que desce da Colômbia. Ali, segundo o mesmo levantamento de Albrecht, a tempestade aparece em perto de 297 noites por ano.

Quem mora nas palafitas (casas de madeira erguidas sobre estacas dentro da água) de Congo Mirador, uma vila de pescadores na margem, conhece o horário. O céu escurece no fim da tarde, as nuvens crescem sobre o lago e os clarões começam depois do jantar.

O espetáculo dura horas. Em noite forte, os moradores contam dezenas de clarões por minuto, quase sempre dentro das nuvens, sem estrondo que chegue à vila. A distância abafa o trovão, e o que sobra é luz.

Os navegadores do Caribe usavam o brilho como referência desde a época colonial. O fenômeno ganhou o apelido de Farol de Maracaibo, visível de longe por quem se aproximava da costa à noite.

O raio também entrou na identidade da região. A bandeira do estado de Zulia, onde fica o lago, traz um relâmpago, e o hino estadual fala da luz no céu.

Em 2014, o Guinness World Records registrou o lago como o lugar com a maior concentração de relâmpagos do mundo. O registro se apoiou em dados anteriores do mesmo satélite da NASA que Albrecht usaria dois anos depois.

Houve uma pausa famosa. Entre janeiro e março de 2010, durante uma seca forte, as tempestades sumiram por semanas, e a vila ficou no escuro pela primeira vez na memória dos mais velhos.

A volta dos clarões confirmou o que os pescadores sempre disseram: a tempestade depende do lago, do vento e das montanhas em volta. Cada peça tem um papel, e a ordem em que elas se encaixam explica por que o céu acende ali, e não em outro lago tropical.

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I  O Mecanismo

Uma panela cercada de montanhas

O lago de Maracaibo ocupa o fundo de uma bacia (uma baixada cercada de terreno alto). A oeste fica a Serra de Perijá, na fronteira com a Colômbia. Ao sul e a leste sobem os Andes de Mérida, com picos acima de 4.900 metros.

A forma lembra uma panela aberta para o norte, onde o lago se liga ao golfo da Venezuela e ao mar do Caribe. O calor do dia fica preso nesse fundo baixo, e a água do lago passa o ano morna, perto de 30 graus na superfície.

Durante o dia, o sol esquenta mais a terra do que a água. O ar sobe nas encostas, e uma brisa sai do lago em direção às montanhas. As nuvens se formam sobre os morros, longe da água.

À noite, o sentido se inverte. As encostas perdem calor depressa, e o ar frio e pesado escorre montanha abaixo, um vento chamado catabático (o vento que desce a encosta por ser mais denso que o ar em volta).

O ar frio das serras desce de três lados e se encontra justo sobre a água morna do sudoeste do lago.

O lago, mais quente que a terra à noite, alimenta o ar logo acima com umidade e calor. Quando o vento frio chega por baixo, ele funciona como uma cunha: levanta o ar quente e úmido, que sobe depressa.

Na subida, o vapor esfria e condensa. Formam-se os cúmulos-nimbos (as nuvens altas de tempestade, em forma de torre), que passam de 15 quilômetros de altura em noite de calor.

Dentro dessas torres, cristais de gelo, granizo miúdo e gotas super-resfriadas (água ainda líquida abaixo de zero) se chocam o tempo todo. Cada choque troca carga elétrica. As partículas leves sobem com carga positiva, e as pesadas ficam embaixo com carga negativa.

Quando a diferença entre as camadas fica grande demais para o ar isolar, a descarga rompe o caminho. A maior parte dos clarões do Catatumbo corre de uma nuvem para outra, ou dentro da mesma nuvem, sem tocar o chão.

O canto sudoeste concentra o efeito por geografia. Ali as brisas das duas serras se cruzam, e a foz do Catatumbo despeja água doce e umidade extra vinda dos pântanos da margem.

Uma explicação popular atribuía os raios ao metano (o gás que sai da matéria orgânica podre) dos pântanos. Nenhuma medição sustentou a ideia: o gás não carrega a nuvem, e o padrão dos clarões segue o vento e o relevo.

 
 

II  Por que Importa

O mapa visto do espaço

O satélite usado por Albrecht se chamava TRMM (Missão de Medição de Chuva Tropical), lançado em 1997 pela NASA e pela agência espacial japonesa, a JAXA. A bordo, um instrumento chamado LIS (Sensor de Imagens de Relâmpagos) contava os clarões vistos de cima, de dia e de noite.

O sensor olhava cada ponto da faixa tropical só por perto de 90 segundos a cada passagem. Um retrato tão curto não diz nada sobre uma noite. Somado ao longo de 16 anos, entre 1998 e 2013, vira um mapa confiável.

A equipe dividiu o globo em quadrados de 0,1 grau, uns 11 quilômetros de lado, e ordenou os 500 mais carregados. O lago de Maracaibo ficou no topo da lista.

O segundo colocado, Kabare, na República Democrática do Congo, somou 205 relâmpagos por quilômetro quadrado ao ano.

A África concentrou muitos dos pontos mais ativos, em especial na bacia do Congo e nas margens do lago Vitória. Maracaibo foi a exceção que tirou o primeiro lugar do continente africano.

O resultado também corrigiu um palpite antigo. Antes do TRMM, a lista de recordes dependia de estações em terra, raras na floresta e no mar. O satélite viu o planeta inteiro com o mesmo olho e o mesmo critério.

Para quem mora perto, o recorde tem custo. Raio em área de pesca expõe quem está na água, e as redes de energia da região sofrem com as descargas que chegam ao chão.

Para a ciência, o lago virou um laboratório natural. Uma tempestade que volta quase toda noite, no mesmo lugar e no mesmo horário, deixa o pesquisador planejar a medição com antecedência, situação rara em meteorologia e quase impossível com tempestades comuns.

A seca de 2010 serviu de teste. O fenômeno climático El Niño (o aquecimento periódico do Pacífico tropical, que muda a chuva no continente) reduziu a umidade sobre o lago, e as noites de raios caíram. Com a volta da chuva, os clarões voltaram.

O episódio mostrou a dependência direta da tempestade em relação à água. Sem umidade suficiente, o vento frio das serras continua descendo, mas não encontra ar quente e úmido para empurrar.

 

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III  A Fonte

Quatro séculos de testemunhas

O registro escrito mais antigo costuma ser atribuído ao poeta espanhol Lope de Vega. Em La Dragontea (A Dragontea), poema épico publicado em 1598, ele narra o ataque do corsário inglês Francis Drake à costa venezuelana em 1595.

A tradição local diz que os clarões revelaram os navios de Drake aos defensores de Maracaibo durante a noite. Historiadores tratam o episódio como lenda: o poema exalta a defesa espanhola, e nenhum documento militar da época confirma a cena.

No século 19, o naturalista alemão Alexander von Humboldt passou pela Venezuela e descreveu os clarões frequentes sobre a região do lago. O relato dele ajudou a levar o fenômeno para a literatura científica europeia.

A primeira prova de número veio do espaço, quatro séculos depois do poema.

Os moradores sempre tiveram a medida mais longa. Pescadores de Congo Mirador e de Ologá, outra vila de palafitas, guardam na memória as noites boas e as fracas, e foram eles os primeiros a notar a pausa de 2010.

Esse conhecimento entrou no turismo. Barcos saem de Encontrados, cidade próxima, no fim da tarde, e levam visitantes até as palafitas para dormir sob a tempestade. A vila de Congo Mirador, porém, encolheu nos últimos anos com o assoreamento (o acúmulo de lama que deixa a água rasa) da margem.

Hoje o relâmpago é vigiado por um sucessor do TRMM. O satélite GOES-16, da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, carrega o GLM (Mapeador Geoestacionário de Relâmpagos), que observa as Américas sem parar desde 2017.

Com a observação contínua, o mapa deixou de ser uma soma de retratos de 90 segundos. Os pesquisadores agora seguem cada tempestade do Catatumbo do primeiro clarão ao último, noite após noite.

Uma dúvida segue sem resposta firme. Ninguém sabe ainda como o aquecimento do lago e o desmatamento das encostas vão mudar a frequência dos raios nas próximas décadas, porque a série contínua de medições cobre poucos anos e o efeito de cada mudança se mistura ao dos ciclos do El Niño.

O que já se mediu basta para pôr o lago no topo.

297 noites de tempestade por ano no sudoeste do lago de Maracaibo (Albrecht e colegas, Bulletin of the American Meteorological Society, 2016).

 
 
Quiz da edição

No ranking de 16 anos montado por Albrecht e colegas, qual foi o lugar que ficou em segundo, atrás do lago de Maracaibo?

AA bacia do Congo, na África Central
BKabare, na República Democrática do Congo, com 205 relâmpagos por km² ao ano
CAs margens do lago Vitória, na África Oriental
DO golfo da Venezuela, na foz do lago

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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