|
|
O rio amazônico que ferve a 700 quilômetros do vulcão mais próximo
Andrés Ruzo mediu médias perto de 86 graus ao longo de 6,24 quilômetros do Shanay-Timpishka e publicou as medições em 2016.
|
Vapor sobre o Shanay-Timpishka, na Amazônia peruana
|
| ▼ |
|
No centro da Amazônia peruana, na bacia do rio Pachitea, corre um afluente que solta vapor visível a dezenas de metros de distância. O geocientista Andrés Ruzo, da Southern Methodist University, no Texas, mediu ali temperaturas médias perto de 86 graus Celsius, com pontos que chegam quase à fervura, e reuniu as medições no livro The Boiling River, publicado pela TED Books em 2016.
O nome local do curso d'água é Shanay-Timpishka, expressão asháninka que se traduz como fervido pelo calor do sol. Os moradores de Mayantuyacu, a comunidade que vive na margem, usam a água quente para cozinhar, para banho medicinal e para rituais conduzidos por curandeiros, e tratam o rio como entidade sagrada, não como curiosidade geológica.
Ruzo ouviu a história na infância, do avô, como lenda de conquistadores espanhóis que teriam voltado da selva falando de água que escaldava. Quando perguntou a geólogos e a funcionários de petrolíferas, adulto e já na pós-graduação, a resposta que recebeu foi direta: um rio daquele tamanho não ferve longe de vulcão. Ele foi conferir em 2011, guiado por uma tia que conhecia o caminho.
O que encontrou tem escala incômoda para quem espera uma fonte termal comum. Pelas medições de Ruzo publicadas em 2016, o trecho quente se estende por 6,24 quilômetros, com largura que chega a 25 metros e profundidade de até 6 metros em alguns poços. Fonte termal de beira de estrada cabe numa banheira. Ali, o volume de água quente correndo daria para encher uma piscina olímpica em poucos minutos.
O detalhe que transforma a cena em problema científico aparece quando se olha o mapa geológico. Ruzo registra que o centro vulcânico ativo mais próximo está a cerca de 700 quilômetros dali, na cordilheira. Nenhuma câmara de magma rasa, nenhum cone fumegante, nenhum tremor de origem vulcânica na vizinhança. E, mesmo assim, água saindo do chão a temperatura de chá recém-passado, dia e noite, o ano inteiro.
A explicação existe, foi testada com química da água, e ela começa a centenas de quilômetros dali, no alto dos Andes.
Continue lendo ↓
|
|
I O Mecanismo
A chuva dos Andes que volta pela fratura certa
|
|
Andrés Ruzo descreve o Shanay-Timpishka como um sistema hidrotermal, termo que designa qualquer circulação de água subterrânea aquecida dentro da crosta terrestre. A palavra costuma vir colada a vulcão na cabeça das pessoas, e a colagem é um acidente de popularidade: Yellowstone e a Islândia ficaram famosos, e o caso comum acabou esquecido.
O motor do caso comum é o gradiente geotérmico, o aumento natural de temperatura conforme se desce pela crosta. O Serviço Geológico dos Estados Unidos descreve um aumento médio próximo de 25 graus Celsius a cada quilômetro de profundidade nas áreas continentais estáveis. Numa conta grosseira, água que alcance três quilômetros de profundidade já encontra rocha bem acima do ponto de fervura na superfície.
A pergunta seguinte é como a água chega lá embaixo e como volta. A química respondeu a primeira metade. Ruzo analisou a assinatura dos isótopos de hidrogênio e de oxigênio da água, as variantes mais pesadas e mais leves dos mesmos átomos, que funcionam como impressão digital da origem. O resultado apontou água meteórica, isto é, chuva, e chuva que caiu longe, em altitude, compatível com as encostas andinas a centenas de quilômetros a oeste.
A água que ferve na Amazônia é chuva de montanha que desceu quilômetros pela crosta, ganhou calor da rocha no caminho e achou uma saída, tudo sem nenhum magma envolvido. |
A volta à superfície depende da geologia local, e ela ajuda. A região fica numa zona de falhas e fraturas ligada ao campo de Agua Caliente, uma área de exploração de petróleo conhecida desde a primeira metade do século 20 justamente por poços que devolviam água quente. Falha funciona como cano: quebra a rocha impermeável e dá caminho vertical rápido para o fluido pressurizado subir.
Rápido é a palavra que fecha a conta. Se a subida fosse lenta, a água perderia calor para a rocha fria do caminho e chegaria morna. Pela leitura de Ruzo, a combinação de fluxo alto com trajeto direto entrega a água na superfície ainda perto do ponto em que estava lá embaixo, e o volume que sai é grande o bastante para manter o leito aquecido por quilômetros, sem tempo de esfriar.
O trecho não tem temperatura uniforme, e a variação também entrega o mecanismo. Ruzo registrou pontos frios onde nascentes comuns entram no leito, e picos onde a água termal jorra direto da margem. O rio esquenta e esfria conforme as entradas, como uma torneira dupla mal ajustada ao longo de seis quilômetros.
Fervura literal, no sentido físico de a água virar vapor em borbulhas, acontece só em pontos isolados. Na maior parte do trecho, a água fica abaixo dos 100 graus e solta vapor por evaporação intensa, o que explica a névoa permanente sobre o leito sem que o rio inteiro esteja borbulhando.
|
|
II Por que Importa
O que prospera na água que ninguém consegue tocar
|
|
Para o animal que cai ali, a temperatura é sentença imediata. Ruzo relata sapos, lagartos e pequenos mamíferos que entram no leito e não conseguem sair, com o tecido cozinhando de fora para dentro em segundos, e descreve o olho do animal esbranquiçando primeiro. Quem trabalha na margem conhece a regra: pisou, perdeu a perna.
Para uma parte da vida microscópica, o mesmo ambiente é endereço confortável. Micro-organismos termófilos, literalmente amantes de calor, colonizam as pedras e as bordas do leito formando tapetes coloridos, e enzimas que operam em temperatura alta são exatamente o produto que a indústria persegue nesse tipo de lugar.
A história que prova o tamanho do prêmio aconteceu em outra bacia termal. Thomas Brock e Hudson Freeze isolaram a bactéria Thermus aquaticus de uma fonte quente do Parque de Yellowstone e publicaram a descrição no Journal of Bacteriology, em 1969. A enzima que copia DNA dentro dela aguenta o calor que destruiria a versão humana da mesma enzima.
Uma bactéria de fonte termal virou a peça central do exame que hoje se faz em qualquer laboratório clínico do mundo, e ela foi encontrada porque alguém decidiu olhar dentro de água quente demais para a vida. |
Kary Mullis desenhou a reação em cadeia da polimerase, a técnica que multiplica um trecho de DNA milhões de vezes, e recebeu o Nobel de Química de 1993 pelo trabalho. A reação depende de ciclos de aquecimento, e a enzima da Thermus aquaticus, batizada Taq, foi o componente que tornou o ciclo automático. Teste de paternidade, diagnóstico de infecção e sequenciamento genético descendem dessa escolha.
O Shanay-Timpishka interessa pelo mesmo motivo, e por um adicional. A água dele circula numa bacia amazônica de floresta densa, química diferente da de Yellowstone, e os tapetes microbianos de lá foram amostrados pela equipe reunida no Boiling River Project, a iniciativa de conservação e pesquisa que Ruzo fundou depois da primeira expedição.
Existe ainda a lição que atravessa a geologia inteira. Um fenômeno sem vulcão por perto mostra que calor aproveitável mora a poucos quilômetros de profundidade em muito mais lugares do que a lista de países vulcânicos sugere, o que muda a conversa sobre energia geotérmica fora da Islândia e do Japão.
A ameaça ao lugar não é geológica. Ruzo aponta o desmatamento no entorno como o risco imediato: derrubar a floresta que cobre o leito expõe a água ao sol, altera o regime de chuva local e desmonta o ecossistema que depende do vapor permanente. O rio continuaria quente, e a fumaça que sobe dele deixaria de encontrar sombra.
| |