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Toda superfície devolve um pouco de luz só por ser superfície. Quando a luz passa de um meio para outro, do ar para o vidro, por exemplo, uma parte dela ricocheteia na fronteira, e quanto maior a diferença entre os índices de refração (a medida de quanto cada meio freia a luz), maior o rebote. Uma vidraça comum reflete cerca de 4% da luz em cada face, mesmo sendo transparente.
Tinta preta sofre do mesmo problema. O pigmento absorve bem, mas a película de resina na frente dele tem índice de refração parecido com o do vidro e devolve a sua parte antes de a luz chegar ao pigmento. Daí o preto de tinta brilhar um pouco quando a lâmpada bate de lado.
Em janeiro de 2008, a equipe do físico Shawn-Yu Lin, do Instituto Politécnico Rensselaer, nos Estados Unidos, com Pulickel Ajayan, da Universidade Rice, atacou o problema pela fronteira. Num artigo da revista Nano Letters, o grupo descreveu um tapete de nanotubos de carbono em pé, tão espaçados que o conjunto tinha índice de refração quase igual ao do ar. Sem salto de índice, a luz quase não encontra onde ricochetear.
O tapete devolvia 0,045% da luz que recebia. A tinta preta comum devolve de 5% a 10%, segundo o próprio Rensselaer, e o recorde anterior, uma película de liga de níquel e fósforo, ficava entre 0,16% e 0,18%.
A luz que entra ainda precisa ser absorvida lá dentro, e aí trabalha o carbono. Cada nanotubo é uma folha de grafeno (carbono numa camada da espessura de um átomo) enrolada em cilindro, e o carbono nessa forma absorve luz numa faixa larga de cores. Um raio que desce entre os tubos bate num, desvia, bate no seguinte, e a cada encontro perde parte da energia, que vira calor.
Os tubos são muito mais compridos do que largos, e o caminho de volta até a superfície fica longo demais para quase qualquer raio. Na comparação usada pela Surrey NanoSystems, entrar no Vantablack seria como andar por uma floresta de árvores com três quilômetros de altura: quase nenhuma luz do céu chegaria até quem está no chão.
No Vantablack, a luz quase não encontra superfície para rebater e entra num corredor de carbono comprido demais para a volta. |
A contribuição da Surrey NanoSystems foi de fábrica. Florestas de nanotubos crescem por deposição química a vapor (um gás rico em carbono se decompõe sobre um catalisador e os tubos brotam dele), em geral com muito calor: a versão desenvolvida pela NASA precisava de uns 750 °C, e o Vantablack nasce a cerca de 400 °C.
A diferença abriu a porta do alumínio, metal que derrete perto dos 660 °C e forma o esqueleto de boa parte dos instrumentos espaciais.
O preço do truque é a fragilidade: a pressão de um dedo basta para deitar os tubos e devolver à superfície parte do brilho perdido.
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