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Em 1938, Donald Griffin, aluno de graduação da Universidade Harvard, levou uma gaiola de morcegos ao laboratório do físico George Washington Pierce. Pierce tinha construído um detector de ultrassom (som agudo demais para o ouvido humano, acima de 20 mil vibrações por segundo) que convertia o sinal em estalos audíveis.
Os morcegos pareciam mudos. Diante do aparelho, encheram o alto-falante de estalos. Gritavam o tempo todo, numa faixa que nenhum humano escuta.
Faltava ligar o grito ao voo. Com o colega Robert Galambos, Griffin refez os testes de Spallanzani e Jurine numa sala com fios esticados do teto ao chão, e acrescentou duas variações: amarrar a boca dos morcegos e registrar o som durante o voo.
Com a boca fechada, os bichos batiam nos fios, iguais aos de ouvido tapado. Com a boca livre, desviavam. E o registro de Griffin e Galambos mostrou que o ritmo dos gritos acelerava quando o morcego chegava perto de um obstáculo.
O morcego grita e escuta a volta do grito: a distância do obstáculo está no atraso do eco. |
A conta é simples. O som sai da boca, bate no fio ou no inseto e volta à orelha. Quanto maior a demora, mais longe está o alvo. A diferença de chegada entre a orelha esquerda e a direita indica o lado.
O tom do eco completa a leitura. Um inseto que vem em direção ao morcego devolve o som um pouco mais agudo; um que se afasta devolve mais grave. Com a sequência de gritos, o bicho monta o trajeto da presa no escuro.
Griffin batizou o processo em 1944, num artigo na revista Science: echolocation, ecolocalização em português (localizar pelo eco). A palavra entrou nos manuais de zoologia e ficou.
O grito também não é contínuo. Cada chamado dura uma fração de segundo, e o morcego reduz a sensibilidade do próprio ouvido no instante em que grita, por um músculo minúsculo do ouvido médio que se contrai junto. Assim o berro não ensurdece o bicho, e a orelha volta a ficar atenta a tempo de pegar o eco fraco.
Na reta final da caça, os chamados ficam tão próximos que, no detector, viram um zumbido. Pesquisadores chamam esse trecho de zumbido terminal (a rajada de gritos dos últimos instantes antes da captura). É quando o morcego precisa da posição exata do inseto, atualizada a cada milésimo de segundo.
A precisão impressionou os próprios autores. Nos testes de Griffin e Galambos em Harvard, os morcegos atravessavam a sala de fios de arame no escuro total e raramente encostavam num deles, desde que boca e ouvidos estivessem livres. Bastava tapar um dos dois para os choques voltarem.
Explica-se também por que Spallanzani não achou a resposta. Ele procurava um som e só ouvia silêncio, porque o grito do morcego mora acima do teto da audição humana. O sentido existia; faltava um instrumento capaz de alcançá-lo.
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