|
|
Os testes nucleares dataram cada célula do seu corpo
As explosões atmosféricas dobraram o carbono-14 do ar entre 1955 e 1963, e o excesso ficou preso no DNA de toda célula formada naquela janela.
|
O carimbo de data que 1963 deixou nos tecidos
|
| ▼ |
|
A DECLARAÇÃO
Cada célula do seu corpo carrega a data em que nasceu, e quem imprimiu essa data foi um programa de armas nucleares.
Entre 1955 e 1963 os testes atmosféricos quase dobraram o carbono-14 do ar, e o excedente entrou na planta, na comida e no DNA de toda célula que se dividiu naquela janela.
Kirsty Spalding transformou o acidente em instrumento. Medindo o carbono-14 do DNA de um tecido, o laboratório lê o ano em que aquelas células se formaram, com margem de um a dois anos.
O resultado desmonta o senso comum sobre renovação. Os neurônios do córtex têm a idade exata da pessoa e nunca são substituídos, enquanto as células de gordura se refazem por inteiro a cada oito ou dez anos.
|
|
Durante quase toda a história da biologia, ninguém conseguia dizer a idade de uma célula viva dentro de uma pessoa. Dava para contar quantas existiam, medir o diâmetro, descrever a forma e listar os genes ligados naquele instante. A pergunta mais simples de todas, o dia em que aquela célula apareceu, não tinha resposta.
O método que funciona no laboratório não serve para gente. Para datar uma célula, o pesquisador oferece ao animal uma molécula marcada que só entra no DNA no instante da cópia, espera o tempo que quiser e depois procura a marca no tecido.
Timidina tritiada é radioativa. BrdU é análogo de base e atrapalha justamente a divisão que deveria registrar. Nenhum dos dois entra num voluntário saudável.
Sobrou o caminho indireto, e ele devolvia margens largas demais. Contagem de figuras de divisão em lâmina, marcadores de proliferação, modelos matemáticos calibrados em roedor de vida curta. Cada abordagem dava um número diferente para o mesmo órgão, e a distância entre eles não era de dez por cento, era de ordem de grandeza.
O resultado é que dois enunciados opostos circulavam com a mesma cara de fato assentado. Um dizia que o corpo inteiro se refaz a cada sete anos. O outro dizia que o cérebro adulto não ganha uma célula nova desde a infância. Nenhum dos dois tinha medida direta em humano por trás.
Faltava um relógio que já estivesse rodando dentro das pessoas sem que ninguém precisasse injetar nada. Um marcador aplicado à população inteira do planeta, com data conhecida, dose conhecida e nenhum comitê de ética a consultar, porque a aplicação já tinha acontecido décadas antes, feita por gente que não estava pensando em biologia.
Esse marcador existe, e o recibo dele está guardado no tecido de quem estava vivo entre 1955 e 1963. Ele saiu de um programa de armas, e a cadeia que liga uma explosão no deserto ao núcleo das suas células começa com um nêutron solto batendo numa molécula de ar.
Continue lendo!
|
|
I O Mecanismo
Do nêutron solto ao DNA que não se refaz
|
|
A reação que interessa acontece no ar, não no chão. A explosão despeja uma quantidade enorme de nêutrons livres, e o ar é feito de nitrogênio em quase quatro quintos.
Um nêutron entra no núcleo de um átomo de nitrogênio-14, expulsa um próton e deixa para trás um átomo de carbono-14. É a mesma reação que o raio cósmico faz na alta atmosfera desde sempre, multiplicada por um fator brutal em poucos anos.
O átomo novo não fica parado. Ele se oxida em gás carbônico, se mistura com o resto da atmosfera e roda o planeta em cerca de um a dois anos, o que dá ao hemisfério norte um valor próprio para cada ano.
Entre 1955 e 1963 a proporção de carbono-14 no ar do hemisfério norte quase dobrou em relação ao patamar que valia havia milênios, com o máximo no verão de 1963.
Em agosto daquele ano o tratado assinado em Moscou proibiu teste atmosférico para Estados Unidos, União Soviética e Reino Unido. A torneira fechou, e a curva começou a descer no ano seguinte.
A descida não é decaimento radioativo. A meia-vida do carbono-14 é de 5.730 anos, tempo irrelevante numa escala de décadas.
O que derruba a curva é absorção. O oceano e a vegetação vão sugando o excedente, e a sobra atmosférica cai pela metade a cada onze anos, aproximadamente.
Essa inclinação é o que dá precisão ao método. Numa curva íngreme cada ano tem um valor distinguível do valor do ano vizinho.
Da atmosfera até o prato o trajeto é banal. A planta fixa o gás carbônico na fotossíntese sem distinguir carbono-12 de carbono-14, o herbívoro come a planta, e a pessoa come os dois.
O carbono que entra no corpo carrega, portanto, a assinatura do ar daquele ano, com uma defasagem de meses entre a colheita e o prato que os pesquisadores corrigem.
Faltava a peça que não se apaga. Gordura, proteína e açúcar são desmontados e remontados o tempo todo, e o carbono deles é do mês passado, não do ano em que a célula nasceu.
O DNA genômico é a exceção. Ele é copiado uma única vez, no instante da divisão, e o esqueleto de carbono da molécula fica parado enquanto a célula viver.
A consequência fecha o método. Medir carbono-14 no DNA de um tecido é ler o ar do ano em que aquelas células se dividiram pela última vez.
A bancada é trabalhosa. Do tecido de necropsia saem os núcleos, separados por citometria de fluxo com anticorpo contra a proteína NeuN quando é preciso apartar neurônio de célula glial.
O DNA purificado é queimado até virar gás carbônico, reduzido a grafite e levado ao espectrômetro de massa com acelerador do Lawrence Livermore, que conta átomos de carbono-14 numa proporção perto de um para um trilhão. A resolução chega a um ou dois anos.
|
|
II Por que Importa
O córtex tem a idade da certidão
|
|
O primeiro alvo do método foi o córtex cerebral, e o resultado encerrou uma discussão de um século.
Um neurônio do neocórtex carrega o valor atmosférico do ano de nascimento da própria pessoa. Quem nasceu em 1950 tem córtex com carbono de 1950, mesmo tendo atravessado o pico de 1963 inteiro comendo a comida daquele ar.
O estoque de neurônios corticais fecha no desenvolvimento e não é reposto, então a célula que pensa em você hoje é a mesma que já estava lá quando você aprendeu a andar.
O cerebelo saiu um pouco mais novo que a pessoa, o que bate com o fato de a formação dele continuar depois do parto.
O hipocampo é a exceção, e o mesmo método a mediu. A conta chega a cerca de 700 neurônios novos por dia em cada hipocampo, com renovação anual de 1,75% na população que se renova.
O coração fica no meio do caminho. O cardiomiócito é trocado a cerca de 1% ao ano aos 25 anos e a 0,45% aos 75, o que deixa menos da metade do órgão substituída numa vida inteira.
A gordura contou a história mais desconfortável. O número de adipócitos é definido na infância e na adolescência, e depois trava.
No adulto, cerca de 10% das células de gordura são renovadas por ano, o que refaz o conjunto inteiro em oito a dez anos sem alterar a quantidade total.
Emagrecer esvazia a célula, não elimina a célula. O corpo mantém a mesma contagem de adipócitos prontos para receber lipídio de volta, e essa contagem fixa ajuda a explicar a facilidade com que o peso retorna.
O intestino roda no extremo oposto, com o epitélio refeito em poucos dias. A frase de que o corpo inteiro se renova a cada sete anos erra nas duas pontas ao mesmo tempo.
Fora da fisiologia, o mesmo relógio virou ferramenta de identificação. O esmalte do dente se forma em idade conhecida e não se renova depois, então o carbono-14 dele devolve o ano de nascimento de um corpo não identificado com margem perto de 1,6 ano.
A curva também data presa de elefante, o que separa marfim antigo de marfim recente e sustenta a fiscalização do comércio.
O relógio, porém, tem prazo. O oceano já absorveu quase todo o excedente e a queima de combustível fóssil despeja carbono sem carbono-14 nenhum, empurrando a curva mais para baixo.
Por volta de 2020 a atmosfera voltou ao nível anterior aos testes. Quem nasceu depois disso não tem carimbo distinguível, e a janela aberta pela corrida armamentista está se fechando sozinha.
Sobra o paradoxo. O programa que produziu o objeto mais destrutivo do século deixou, sem querer, a única régua capaz de dizer a idade de uma célula viva dentro de uma pessoa.
|
|
III A Fonte
Karolinska, Livermore e seis medidas
|
|
Cell, 2005. Kirsty Spalding, Ratan Bhardwaj, Bruce Buchholz, Henrik Druid e Jonas Frisén, em "Retrospective birth dating of cells in humans", estabeleceram o método ao mostrar que o carbono-14 do DNA genômico funciona como data de nascimento celular.
O trabalho comparou tecidos de renovação rápida e lenta no mesmo doador e fixou a resolução em torno de um a dois anos, patamar que nenhum marcador injetável havia alcançado em pessoas vivas.
Nature, 2005. Kirsty Spalding, Bruce Buchholz, Lars-Eric Bergman, Henrik Druid e Jonas Frisén, em "Forensics: age written in teeth by nuclear tests", levaram o mesmo raciocínio para o esmalte dentário, que se forma em idade conhecida e depois não troca carbono.
A medida recuperou o ano de nascimento com margem em torno de 1,6 ano, e virou rotina em casos de identificação sem documento.
Proceedings of the National Academy of Sciences, 2006. Ratan Bhardwaj e colegas, em "Neocortical neurogenesis in humans is restricted to development", analisaram indivíduos nascidos antes e depois do pico atmosférico, o que testa o resultado nas duas direções da curva.
Os neurônios do córtex apareceram com a idade do próprio indivíduo, sem sinal de reposição na vida adulta.
Nature, 2008. Kirsty Spalding e colegas, em "Dynamics of fat cell turnover in humans", combinaram a datação com a contagem total de adipócitos em pessoas magras e obesas.
O número de células de gordura é fixado até o fim da adolescência e não muda depois, e cerca de 10% do conjunto é renovado a cada ano, em qualquer faixa de índice de massa corporal.
Science, 2009. Olaf Bergmann e colegas, em "Evidence for cardiomyocyte renewal in humans", mediram a troca de células musculares do coração e acharam 1% ao ano aos 25 anos, caindo para 0,45% aos 75. A conta integrada indica que menos da metade do coração com que a pessoa nasce chega a ser substituída.
Cell, 2013. Kirsty Spalding e colegas, em "Dynamics of hippocampal neurogenesis in adult humans", isolaram os núcleos do giro denteado e encontraram cerca de 700 neurônios novos por dia em cada hipocampo, com renovação anual de 1,75% na população que se renova.
|
| |
| |
Guia Ciência Bizarra · Novo
Física de Bar
Explique buraco negro, dupla fenda e física quântica em 60 segundos para impressionar seus amigos.
|
|
| |
|
Quiz da edição
|
|
Segundo o texto, de quantos em quantos anos as células de gordura se refazem por inteiro?
Defenda seu título de {{titulo_quiz | Estagiário do Lab (3 acertos seguidos garantem o primeiro)}}.
Veja o ranking de quem mais acerta →
|
|
| |
|
|
| |
|