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Em 1912, o físico austríaco Victor Hess subiu num balão a 5.300 metros e mediu que a radiação aumentava com a altitude. Ela vinha de cima, do espaço. Hess ganhou o Nobel de 1936 pela descoberta dos raios cósmicos.
Mais de um século depois, a origem das partículas mais energéticas desse fluxo continuava sem resposta. Elas chegam com energias milhões de vezes acima do que o Grande Colisor de Hádrons, na Suíça, consegue produzir.
O obstáculo é a carga elétrica. Um próton que sai de uma galáxia distante passa milhões de anos sendo empurrado por campos magnéticos. Quando chega, a direção de chegada não guarda relação com o ponto de partida.
Neutrinos de alta energia só nascem onde prótons são acelerados com violência, e assim servem de impressão digital do acelerador. |
A física por trás é direta. Quando um próton muito rápido bate em outro próton ou em luz intensa, a colisão produz píons (partículas instáveis de vida curtíssima). Os píons carregados decaem em neutrinos; os neutros, em raios gama.
Um elétron acelerado também gera raios gama, mas não gera neutrinos. Achar raios gama numa fonte não prova nada sobre prótons. Achar neutrinos prova.
O TXS 0506+056 entregou as duas assinaturas ao mesmo tempo. O Fermi viu a galáxia brilhando em raios gama, e o telescópio MAGIC, nas Ilhas Canárias, detectou fótons acima de 100 gigaeletronvolts vindos do mesmo ponto dias depois do alerta.
A chance de o neutrino cair por acaso sobre um blazar em erupção foi calculada em cerca de 3 sigma, algo como uma chance em algumas centenas. Em física de partículas, o padrão para anunciar descoberta é 5 sigma, aproximadamente uma chance em 3,5 milhões.
Faltava força estatística, e a colaboração foi buscar mais nos próprios arquivos. Ao revirar nove anos e meio de dados apontados para a mesma região, a equipe achou um excesso de 13 neutrinos, com margem de 5 para mais ou para menos, concentrado entre setembro de 2014 e março de 2015.
Nesse período anterior, o blazar não mostrava erupção em raios gama. O excesso sozinho atingiu 3,5 sigma. Somadas, as duas evidências fizeram do TXS 0506+056 a primeira fonte candidata convincente de neutrinos de alta energia fora da galáxia.
A consequência vai além de uma galáxia. O resultado indicou que blazares conseguem acelerar prótons, e portanto podem produzir parte dos raios cósmicos que Hess mediu no balão.
Ele também abriu um jeito novo de observar o universo. A mesma galáxia pode agora ser vista pela luz, pelos neutrinos e, em outros casos, pelas ondas gravitacionais. Os astrônomos chamam a combinação de astronomia multimensageira.
Em 2022, o IceCube apontou a segunda fonte, a galáxia NGC 1068, com 79 neutrinos e 4,2 sigma. Ela não é um blazar e quase não brilha em raios gama, sinal de que existe mais de um tipo de fábrica de neutrinos no céu.
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