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Uma salamandra cega ficou 2.569 dias no mesmo ponto

Na caverna Vruljak, na Bósnia, oito anos de buscas mostraram olmos andando poucos metros, e um deles sem sair do lugar.

Salamandra branca e cega pousada no fundo de pedra de um rio subterrâneo

Olm parado no fundo de pedra da caverna Vruljak

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Em 2020, o biólogo húngaro Gergely Balázs, da Universidade Eötvös Loránd, publicou no Journal of Zoology oito anos de buscas por olmos na caverna Vruljak, na Bósnia e Herzegovina: um dos animais foi reencontrado no mesmo ponto ao longo de 2.569 dias.

O olm é uma salamandra aquática branca, de pele rosada, com 20 a 30 centímetros. Não tem olhos funcionais. Respira por três tufos vermelhos de brânquias externas (os órgãos de respirar na água, presos dos lados da cabeça) e vive só em rios subterrâneos dos Bálcãs.

A equipe de Balázs voltava à água da caverna em visitas repetidas, ano após ano. Cada olm encontrado ganhava uma marca individual, tinha a posição anotada e voltava ao lugar exato onde estava.

O método se chama captura-marcação-recaptura (pegar o animal, marcar, soltar e procurar de novo depois). Cada reencontro conta duas informações: onde o bicho estava e quanto tempo passou desde a última vez em que foi visto.

Os pesquisadores esperavam algum deslocamento. Um rio subterrâneo muda com as cheias, a comida é escassa, e um predador sem visão poderia precisar patrulhar uma área grande para achar presa.

As planilhas mostraram outra cena. Na maior parte dos reencontros, o olm estava a poucos metros do ponto da visita anterior. Os mais inquietos tinham percorrido algumas dezenas de metros em vários anos.

Um animal se destacou entre todos. Visita após visita, ele aparecia no mesmo trecho de fundo. Entre o primeiro e o último registro, passaram 2.569 dias, pouco acima de sete anos.

Nesse intervalo, um cão nasce, cresce e chega à meia-idade. Uma criança vai da alfabetização ao fim do ensino fundamental. O olm de Vruljak continuou no mesmo palmo de pedra.

A pergunta da equipe passou a ser outra: como um vertebrado se mantém vivo tanto tempo sem procurar comida em lugar novo, sem fugir de nada e sem mudar de casa? A resposta mora no corpo do olm, e começa pelo jeito como ele gasta energia.

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I  O Mecanismo

Um corpo feito para gastar pouco

O olm, de nome científico Proteus anguinus, é o único vertebrado europeu adaptado por inteiro à vida em caverna. O corpo dele foi moldado por milhões de anos no escuro, e quase toda adaptação aponta na mesma direção: economizar.

A primeira peça é a temperatura. O olm é ectotérmico (de sangue frio: o corpo segue a temperatura da água). Ele não queima comida para se aquecer, e a água das cavernas dos Bálcãs fica fria e quase constante o ano inteiro.

A segunda é o metabolismo, o ritmo em que o corpo consome energia. No olm, esse ritmo é baixo até para um anfíbio. Em cativeiro, olmos passaram anos sem comer e continuaram vivos, gastando aos poucos a gordura guardada no fígado e na cauda.

A terceira peça é a vida sem pressa. Em 2011, a equipe de Yann Voituron, da Universidade de Lyon, publicou na Biology Letters os dados de décadas de criação no laboratório de cavernas de Moulis, na França. As contas deles deram maturidade sexual por volta dos 15 anos, uma postura de ovos a cada 12,5 anos e longevidade estimada acima de 100 anos.

Um animal com um século pela frente e quase nenhuma conta de energia a pagar pode esperar sete anos no mesmo lugar sem prejuízo.

O jeito de caçar fecha o quadro. Sem olhos, o olm encontra presa por outros sentidos, em quatro etapas:

1. Ele fica parado, encostado no fundo, e deixa a água correr.

2. Células da pele captam vibrações e mudanças na corrente, como a linha lateral dos peixes.

3. Órgãos da cabeça fazem eletrorrecepção (detectar os campos elétricos fracos gerados pelos músculos de outros animais).

4. Quando um crustáceo pequeno, um caramujo ou uma larva de inseto passa perto, ele avança alguns centímetros e engole.

Nesse esquema, andar atrapalha. Cada metro percorrido gasta energia e espalha os sinais da água. Para um caçador de espera, o melhor ponto é aquele por onde a corrente já traz alimento.

Falta a pressão de fora. Na caverna Vruljak, o olm é o topo da cadeia: nenhum peixe grande, ave ou mamífero divide aquela água com ele. Sem predador, ninguém o obriga a fugir, e a pedra onde ele está serve de abrigo permanente.

A equipe de Balázs juntou essas peças na interpretação do artigo. A imobilidade não indica doença nem falta de recurso. Ela sai de um animal de energia barata, sem inimigo e com comida trazida pela correnteza até a boca.

 
 

II  Por que Importa

Um rio só, sem rota de fuga

A fidelidade extrema ao lugar tem um preço na conservação. Um olm passa a vida inteira num trecho curto de rio. Se aquela água muda, ele não tem para onde ir, e quase nunca tenta ir.

Os rios subterrâneos dos Bálcãs recebem o que escorre da superfície. Esgoto, adubo de lavoura, resíduo de fábrica e lixo de garimpo descem pelas fendas do calcário e chegam à água das cavernas sem filtro nenhum.

A União Internacional para a Conservação da Natureza classifica o olm como vulnerável na sua Lista Vermelha. A Bósnia e Herzegovina, a Croácia, a Eslovênia e a Itália protegem a espécie por lei, e capturar olmos sem licença é proibido.

Uma população inteira pode sumir de um trecho de rio sem que nenhum olm tente fugir da água contaminada.

O estudo de Vruljak muda a escala do cuidado. Proteger a espécie no papel não basta: cada caverna guarda um grupo quase fechado, e uma obra mal planejada acima de uma delas pode apagar uma linhagem local inteira.

A barragem é o caso mais citado pelos espeleólogos (os pesquisadores de cavernas). Represar um rio da Herzegovina altera o volume e o caminho da água que entra no carste, o terreno de calcário cheio de fendas e túneis onde o olm vive.

A lentidão do olm também chama a atenção de quem estuda envelhecimento. A maioria dos animais com longevidade fora do comum é grande ou de sangue quente, como baleias e alguns papagaios. O olm pesa poucas dezenas de gramas e passa da centena de anos, segundo as contas de Voituron.

Os pesquisadores procuram no tecido dele defesas contra o desgaste das células. Em 2011, a equipe francesa mediu nos olmos de Moulis enzimas antioxidantes (as que neutralizam moléculas agressivas produzidas pela respiração celular) e não encontrou nada fora do comum. O segredo provável está no ritmo lento do corpo inteiro, sem um gene milagroso.

Há ainda o valor de símbolo. Na Eslovênia, o olm é chamado de človeška ribica (peixinho humano), por causa da pele cor de gente. Ele aparece em moeda, em selo e na entrada das cavernas turísticas de Postojna, onde o público vê alguns exemplares num aquário.

Para quem mora longe dos Bálcãs, a lição vem do método. O que parecia um bicho parado era um animal ajustado ao lugar. Só oito anos de visitas mostraram o padrão.

 

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III  A Fonte

Oito anos de planilha no Journal of Zoology

O artigo se chama Extreme site fidelity of the olm (Proteus anguinus) revealed by a long-term capture-mark-recapture study (fidelidade extrema ao lugar no olm, revelada por um estudo longo de captura e recaptura). Saiu em 2020 no Journal of Zoology, revista com revisão por pares da Sociedade Zoológica de Londres.

Os autores são três. Gergely Balázs e Gábor Herczeg trabalham na Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste. Brian Lewarne, biólogo britânico, dirige há décadas um projeto de proteção do olm na Herzegovina e conhece as cavernas da região palmo a palmo.

A caverna Vruljak fica no leste da Herzegovina, numa área onde os rios correm por dentro da rocha boa parte do ano. A escolha não foi por acaso: a água ali é rasa o bastante para a equipe alcançar o fundo e achar o mesmo animal de novo.

A prova da imobilidade veio da paciência: cada posição anotada só ganhou sentido quando comparada com a da visita seguinte, anos depois.

O estudo tem limites ditos com clareza. Os dados vêm de uma caverna só e de uma população pequena. A conclusão vale para Vruljak, e os autores não afirmam o mesmo para todas as cavernas dos Bálcãs.

O segundo limite é de método. Captura e recaptura dão fotografias, não filme. Ninguém acompanhou o olm dos 2.569 dias a cada hora. Ele pode ter saído para caçar alguns metros adiante entre uma visita e outra e voltado ao mesmo ponto. O artigo não tem como saber, porque não houve rastreador preso ao corpo do animal.

O resultado conversa com o de Voituron, de 2011, na Biology Letters. Um mostra o corpo que gasta pouco; o outro mostra o animal parado no ambiente natural. As duas peças se encaixam na mesma explicação, vindas de equipes e países diferentes.

O destino do olm recordista também fica em aberto. O artigo registra o último reencontro e não informa se ele segue no mesmo ponto hoje. Com a longevidade estimada da espécie, é possível que esteja lá.

A pergunta da edição fica para você: quantos metros você andaria em sete anos se a comida passasse sozinha pela porta?

2.569 dias. Foi o tempo em que um olm da caverna Vruljak apareceu sempre no mesmo ponto (Balázs, Lewarne e Herczeg, Journal of Zoology, 2020).

 
 
Quiz da edição

No estudo de Balázs na caverna Vruljak, quanto tempo um olm passou registrado sempre no mesmo ponto, entre o primeiro e o último avistamento?

A2.569 dias
B15 anos, idade da maturidade sexual
C12,5 anos, intervalo entre posturas de ovos
D100 anos, a longevidade estimada da espécie

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