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Vlastimil Hart anotou 1.893 cocôs de 70 cães

Em dois anos de passeio com bússola, a equipe de Praga viu o cão se alinhar ao eixo norte-sul nos dias de campo magnético calmo.

Cão agachado num campo aberto ao lado de uma bússola

Cão agachado no campo, ao lado da bússola

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Em 2013, a equipe de Vlastimil Hart, da Universidade Tcheca de Ciências da Vida, em Praga, publicou na revista Frontiers in Zoology a conta de 1.893 defecações de 70 cães: com o campo magnético da Terra calmo, os animais se agachavam alinhados ao eixo norte-sul.

O resultado chegou antes da explicação, e por um caminho pouco nobre. Durante dois anos, donos voluntários na República Tcheca e na Alemanha levaram os cães para passear e anotaram, com uma bússola na mão, a direção do corpo do animal a cada parada.

Os cães eram de 37 raças, de bassê a pastor-alemão. O caderno somou também 5.582 micções. Só valiam as paradas em campo aberto, sem coleira, longe de muro, cerca, poste ou trilha que pudesse empurrar o bicho para uma direção.

Na primeira análise, com todos os registros misturados, não apareceu padrão nenhum. Os cães pareciam escolher o rumo ao acaso, como seria de esperar de um animal procurando um bom lugar no gramado.

A surpresa veio quando a equipe cruzou cada registro com o estado do campo magnético na mesma hora. O campo da Terra não fica parado: os ventos de partículas lançados pelo Sol o sacodem, e a direção do norte magnético balança um pouco ao longo do dia.

Separados os períodos calmos dos agitados, o padrão apareceu. Na calmaria, o cão evitava o eixo leste-oeste e se agachava com a cabeça apontada para o norte ou para o sul. Nos períodos de campo instável, a preferência sumia.

O achado rendeu manchete no mundo inteiro e, em 2014, o Ig Nobel de biologia, a premiação satírica entregue na Universidade Harvard a pesquisas que primeiro fazem rir e depois fazem pensar.

Para entender como um cão pode sentir o norte, é preciso começar pelo método: quem anotou, como anotou e o que a equipe chamou de campo calmo.

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I  O Mecanismo

Uma bússola no meio do passeio

Vlastimil Hart, zoólogo da Universidade Tcheca de Ciências da Vida, dividiu o projeto com Hynek Burda, biólogo tcheco radicado na Alemanha, da Universidade de Duisburg-Essen. O artigo saiu assinado por 12 pesquisadores das duas instituições.

Burda já estudava magnetorrecepção (a capacidade de um animal perceber o campo magnético da Terra) havia décadas, primeiro em roedores que vivem debaixo da terra. Os cães entraram por serem fáceis de observar: todo dono passeia com o seu, todo dia, no mesmo horário.

A coleta seguiu quatro passos:

1. O dono soltava o cão num campo aberto e esperava a parada, sem puxar nem chamar.

2. Na hora em que o animal se agachava, o dono media com bússola o eixo do corpo, da cabeça à cauda.

3. A ficha recebia a data, a hora exata e o lugar, para o cruzamento posterior com o campo magnético.

4. A equipe descartava as paradas perto de qualquer referência visual, como cerca, muro ou caminho reto.

Ninguém treinou os cães para nada. Os animais passeavam do jeito de sempre, nos lugares de sempre, e o único instrumento novo no passeio era a bússola na mão do dono.

O campo calmo saiu de dados de observatórios geomagnéticos, estações que medem o campo da Terra sem parar. A equipe olhou a declinação (o ângulo entre o norte da bússola e o norte geográfico) e quanto ela variava na hora de cada parada.

Quando a declinação oscilava pouco, o período entrava como calmo. Quando o Sol mandava uma rajada de partículas e a declinação balançava, entrava como agitado. A classificação não dependia do dono nem do cão.

A análise usou estatística circular, a matemática feita para dados em forma de ângulo, porque a média comum de 350 graus e 10 graus daria 180, o sul, quando os dois apontam quase para o norte.

Na calmaria magnética, o cão não escolhia entre norte e sul: escolhia o eixo, e evitava as duas pontas do leste-oeste.

Esse detalhe pesa. O estudo mediu um alinhamento axial (uma preferência pela linha, sem distinguir os dois sentidos dela). Um cão virado para o norte e outro virado para o sul contavam igual, os dois sobre o mesmo eixo.

As micções seguiram a mesma tendência, mas com um porém. Nos machos que erguem a pata, a postura depende do poste ou da moita escolhida, então a equipe tratou esses registros com mais cautela. A defecação, feita em campo livre, deu o sinal mais limpo.

 
 

II  Por que Importa

Do gado no satélite ao cão de caça

O estudo dos cães não nasceu do nada. Em 2008, Sabine Begall e Hynek Burda publicaram na PNAS, a revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a análise de imagens do Google Earth com rebanhos de bois pastando em vários continentes.

Os bois tendiam a ficar alinhados ao eixo norte-sul, e os veados fotografados na República Tcheca, pelas pegadas na neve, também. Em 2009, a mesma equipe mostrou na PNAS que o alinhamento do gado se desfazia perto de linhas de alta tensão, cujo campo magnético atrapalha o natural.

As raposas entraram em 2011. Jaroslav Červený, coautor do artigo dos cães, publicou na Biology Letters que a raposa-vermelha caçando roedores debaixo da neve acerta mais os saltos quando pula na direção nordeste.

Os cães resolveram um problema dos estudos anteriores. Boi em foto de satélite pode estar fugindo do vento ou buscando sol. Cão de estimação, observado de perto, permite anotar a hora exata e cruzar com o estado do campo naquele minuto.

A condição do campo calmo explica por que o sinal some quando os dados se misturam: em boa parte do tempo, o campo da Terra está agitado demais para servir de referência.

Fica o mecanismo. Ninguém sabe ainda que órgão do cão sente o campo magnético. Há duas hipóteses principais na mesa, e as duas aparecem em outros animais.

A primeira envolve o criptocromo, uma proteína sensível à luz presente na retina. Em 2016, a equipe de Christine Nießner, da Universidade Goethe de Frankfurt, publicou na Scientific Reports a detecção dessa proteína nos cones da retina de cães, lobos e raposas.

A segunda envolve a magnetita, um mineral de ferro magnético que funcionaria como uma agulha de bússola microscópica dentro de células nervosas. Ela já foi achada no bico de aves e em peixes, mas nunca foi localizada com segurança no cão.

Em 2020, a equipe de Kateřina Benediktová, da Universidade Tcheca de Ciências da Vida, publicou na eLife um uso prático. Cães de caça soltos em floresta, ao voltar para o dono por um caminho novo, faziam uma corrida curta sobre o eixo norte-sul antes de escolher o rumo.

Os cães que faziam essa corrida voltavam por caminho mais direto. A hipótese dos autores é de calibração: o cão alinha o corpo ao eixo magnético para acertar o mapa mental antes de navegar.

 

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III  A Fonte

O artigo de Praga e Duisburg

O artigo saiu em dezembro de 2013 na Frontiers in Zoology, revista de acesso livre, com o título Dogs are sensitive to small variations of the Earth's magnetic field (cães são sensíveis a pequenas variações do campo magnético da Terra).

O resumo descreve a amostra assim: “Os cães preferiram defecar com o corpo alinhado ao eixo norte-sul sob condições de campo magnético calmo.” A frase sai de Hart e colegas, Frontiers in Zoology, 2013, e o resto do texto trata de medir essa calma.

Os autores chamaram o resultado de primeira prova de que cães percebem o campo magnético e de primeira demonstração de que um mamífero reage às pequenas oscilações dele no dia a dia.

No palco do Ig Nobel, em setembro de 2014, a equipe recebeu o prêmio ao lado de estudos sobre outros temas improváveis. A brincadeira não apagou o artigo, que segue entre os mais lembrados quando o assunto é a bússola interna dos mamíferos.

O próprio artigo aponta os limites. O estudo é observacional: nenhum cão passou por ímã, gaiola blindada ou campo artificial em laboratório. A ligação entre o campo e a postura é uma correlação forte, sem teste de causa.

Falta também o porquê. O artigo não sabe dizer o que o cão ganha ao se alinhar justamente na hora de defecar. A explicação mais citada pelos autores, a da calibração do mapa mental, ficou como hipótese, e o teste dos cães de caça de 2020 a reforçou sem prová-la.

O cão alinhado ao norte é um dado anotado em campo, com bússola e relógio; o órgão que sente o norte segue sem endereço conhecido no corpo do animal.

Para quem tem cachorro em casa, o efeito é discreto. Ele aparece na média de centenas de paradas, não em todo passeio. Na rua, com muro, carro e cheiro de outros cães, quase qualquer referência vence a do campo magnético.

O teste caseiro esbarra no mesmo ponto: sem saber se o campo está calmo naquela hora, o dono não tem como separar a regra do acaso. Os serviços de clima espacial publicam esse estado em tempo real, e a equipe de Praga trabalhou exatamente com esse tipo de registro.

A pergunta da edição fica para você: se o seu cão desse sinal de sentir o norte, em que hora do passeio você esperaria ver?

1.893 defecações. Foi a amostra que mostrou o cão alinhado ao eixo norte-sul em campo magnético calmo (Hart e colegas, Frontiers in Zoology, 2013).

 
 
Quiz da edição

No estudo com 1.893 defecações de 70 cães, o que a equipe de Vlastimil Hart encontrou na primeira análise, feita com todos os registros misturados, sem separar os dias de campo magnético calmo dos agitados?

AUm alinhamento forte ao eixo leste-oeste
BUm padrão só nas micções dos machos que erguem a pata
CNenhum padrão: os cães pareciam escolher o rumo ao acaso
DO mesmo alinhamento norte-sul encontrado depois, só mais fraco

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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